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Publicado em: 30/04/2026 | Atualizado em: 30/04/2026

Estudo analisa transformação de casas para incorporar espaços de trabalho e sociabilidade

Marcos Patricio

O projeto desenvolvido pela pesquisadora Ana Slade (Prourb/FAU/UFRJ) acompanhou as adaptações feitas por moradores dos subúrbios cariocas, que transformaram suas residências em espaços mistos para moradia e trabalho (Fotos: Divulgação/Ana Slade)

A necessidade de empreender, de buscar alternativas à falta de oportunidades no mercado de trabalho e até mesmo de oferecer serviços vêm estimulando moradores da periferia e dos subúrbios cariocas – no plural, devido à diversidade dos bairros – a adaptar suas residências, transformando-as em espaços de uso misto voltados à moradia e ao trabalho. Essa iniciativa, que muitas vezes ignora a legislação, ganhou força nos últimos anos e pode ser analisada sob diferentes olhares, já que traz impactos na geração de renda, na oferta de serviços, às vezes escassos, e até mesmo na redução de deslocamentos casa-trabalho entre o subúrbio – tradicionalmente destinado à moradia – e os locais que concentram a maior parte das atividades econômicas e dos empregos, como o Centro e as áreas mais nobres da cidade.

Essas transformações espontâneas feitas pelos moradores dos subúrbios têm sido acompanhadas de perto pela pesquisadora Ana Slade, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ) e do Programa de Pós-graduação em Urbanismo (Prourb/FAU/UFRJ). Ana vem estudando as mudanças no uso e a adaptação da arquitetura de modo a conjugar trabalho e moradia nas casas.

“É comum, nas áreas residenciais periféricas, as casas serem modificadas pelos residentes para adaptar usos comerciais e produtivos mesmo que à revelia das legislações, se misturando com casas de uso estritamente residencial. Os moradores desses locais vão resolvendo do seu jeito o que não foi planejado”, explica Ana, doutora em Urbanismo pelo Prourb/FAU/UFRJ.

É interessante voltar no tempo e lembrar que as unidades habitacionais utilizadas para moradia e trabalho, conhecidas no Rio de Janeiro como “sobrados”, eram muito comuns no início do século XX. Nessas edificações, a moradia ocupava o pavimento superior e o comércio, o térreo, com acesso pela rua. Entretanto, com o passar do tempo, os sobrados foram dando lugar a casas e edifícios estritamente residenciais. 

A figura reproduz uma esquina do bairro de Irajá, onde foram criados três estabelecimentos comerciais conjugados a imóveis residenciais (Ilustração: Vinícius Medeiros)

Um dos principais aspectos investigados no projeto é o intenso volume de deslocamentos casa-trabalho-casa característico das metrópoles contemporâneas, e que se constitui em um dos grandes desafios para o planejamento urbano. O estudo propõe a discussão sobre possíveis alternativas: investir em soluções para a mobilidade ou optar por uma reestruturação dos bairros, apostando em espaços que atendam às necessidades de moradia e de trabalho e, desta forma, reduzindo as viagens diárias.  

“O trabalho nos estimula a refletir sobre estratégias que possam colaborar para a redução dos deslocamentos nas cidades e para a qualificação de bairros residenciais em subúrbios e nas periferias, a partir da aproximação de moradia e trabalho e do incremento da mistura de usos. O planejamento urbano deve olhar com atenção para essa alternativa”, explica Ana, que participa do núcleo de pesquisa Urbanismo, Crítica e Arquitetura (UrCA) do Prourb/FAU.

O processo de transformação ocorrido no subúrbio carioca pode trazer respostas para que o poder público, gestores, arquitetos e urbanistas possam repensar o projeto arquitetônico, as leis e o planejamento urbano da cidade. Várias dessas respostas estão presentes no livro “Aprendendo com os subúrbios cariocas”, lançado por Ana Slade em 2025. Baseada em sua tese de doutorado, a obra, de 192 páginas, foi publicada pela editora Rio Books, por meio do Programa de Apoio à Editoração da FAPERJ.

O livro mostra que as adaptações realizadas nas residências podem ajudar a repensar o projeto arquitetônico, as leis e o planejamento urbano das cidades (Foto: divulgação)

“As adaptações empreendidas pelos residentes, que vêm redefinindo os espaços onde habitam, podem ser vistas como referências para se pensar alternativas para a forma de planejar a cidade, a arquitetura dos imóveis e até mesmo para criação de uma legislação que contemple o uso misto das edificações”, explica Ana. “A pesquisa e o livro são formas de valorizar esses territórios como áreas de aprendizado. É possível aprender com essas experiências espontâneas”, afirma a professora.  

O livro traz três estudos de caso, mostrando as adaptações promovidas pelos moradores para permitir que os imóveis, antes usados apenas como moradia, pudessem receber atividades comerciais. Foram escolhidos exemplos distintos.

O primeiro deles no Encantado, bairro de quadras grandes, resultado do loteamento de antigas chácaras e fazendas ocorrido na passagem do século XIX para o século XX. O segundo estudo se baseia em imóvel localizado em Irajá, bairro cujos terrenos tiveram origem a partir de loteamentos feitos por companhias imobiliárias ao longo do século XX, com arruamento e tamanho de lotes diferentes dos encontrados no Encantado. O terceiro caso é de um imóvel do conjunto habitacional do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos (IAPM), localizado próximo à Avenida Brasil, também em Irajá.

Ana Slade: segundo a professora, as transformações realizadas nos subúrbios podem contribuir para a redução dos deslocamentos casa-trabalho e para a qualificação de bairros residenciais 

Essas mudanças contribuem para trazer um novo olhar para o ensino de Arquitetura e Urbanismo. Muitos modelos são, ainda hoje, baseados em referências de outros países. “Essas adaptações são uma alternativa nacional de ensino e pesquisa frente às referências estrangeiras”, explica Ana Slade, que integra o Núcleo de Atividades de Extensão, Pesquisa e Ensino Sobre o Morar Popular Urbano (naMORAR) do Prourb/FAU.

A professora da FAU/UFRJ faz parte do coletivo “Diálogos suburbanos”, que reúne pesquisadores da UFRJ, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) e de outras instituições, além de profissionais independentes de diferentes áreas para repensar os subúrbios a partir de olhares diversos. “Os arquitetos e urbanistas atuam muito pouco nessas regiões. Há poucas políticas de urbanização destinadas aos bairros dos subúrbios”, afirma Ana, que coordena projetos de extensão em colaboração com o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM).

O trabalho realizado pela pesquisadora tem estimulado novos estudos, alguns deles desenvolvidos por alunos oriundos dos subúrbios, estudantes de graduação e de pós-graduação que veem em seu dia a dia as transformações de imóveis e o surgimento de novos pontos de comércio e serviço em seus bairros.

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