Flávia Machado
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| Para debater soluções para a mobilidade urbana, projeto promove evento de escuta em Cabo Frio com a participação de gestores públicos (Foto Divulgação/Acervo de Pesquisa) |
Uma profusão de motociclistas se equilibrando por entre os carros, bicicletas elétricas, motocicletas, cruzando sinais vermelhos, transitando pela contramão, falando ao celular. Quem nunca viu situação semelhante numa grande cidade brasileira que atire a primeira pedra. A percepção que se tem é a de que o trânsito está cada dia mais confuso e violento. E os números confirmam a escalada de acidentes nos últimos anos e que não se trata, porém, apenas de percepção.
O País registrou em 2024 o maior número de mortes no trânsito em oito anos, contabilizando 37.150 óbitos, 6,5% a mais do que os 34.881 de 2023, de acordo com dados do DataSUS, do Ministério da Saúde. Sendo que deste total, as motos respondem por 40%, como indicam dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em novembro do ano passado.
Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a situação é ainda mais alarmante. Dados do Corpo de Bombeiros, divulgados pelo site de notícias G1 em abril, mostram crescimento no número de ocorrências nos quatro primeiros meses deste ano em comparação ao mesmo período de 2025. Na cidade do Rio, sete em cada dez atendimentos por trauma envolvem acidentes com motocicletas. De janeiro a abril, a rede municipal de saúde realizou mais de 10 mil atendimentos. No período de um ano, entre 2024 e 2025, a cidade do Rio de Janeiro teve um aumento de 702% no número de atendimentos a pacientes envolvidos em acidentes com veículos de micromobilidade – patinetes elétricos, autopropelidos, ciclomotores –, de acordo com levantamento da Comissão de Segurança no Ciclismo do RJ, com base em dados da Secretaria Municipal de Saúde.
Para o especialista na área de transportes, novas tecnologias e mobilidade urbana Matheus Henrique de Sousa Oliveira, pesquisador do Programa de Engenharia de Transportes (PET), do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), a melhora na mobilidade, seja nas grandes, médias ou pequenas cidades, passa pelo entendimento de que o gargalo estrutural está na tomada de decisão e no engajamento da população nas questões de mobilidade urbana.
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| Matheus Oliveira: para o pesquisador da Coppe/UFRJ, a melhora na mobilidade nas cidades passa pelo entendimento de que o gargalo estrutural está na tomada de decisão e no engajamento da população nas questões de mobilidade urbana (Foto: Acervo pessoal) |
O pesquisador, que recebeu apoio da FAPERJ para a realização de seus estudos por meio do Programa de Apoio a Projetos Científicos e Tecnológicos em Mobilidade Urbana, vem desenvolvendo o trabalho de pesquisa e implementação de hubs inteligentes de planejamento em todo o estado, intitulado “Mob 4.0 – Hub de Planejamento Inteligente da Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro”. A proposta consiste na criação de "laboratórios vivos de inovação" aplicados à mobilidade e, através deles, apoiar o planejamento inteligente das cidades. Matheus enfatiza “que o apoio dos gestores nesse trabalho é imprescindível para que o desenho saia do papel e tenha êxito”.
“Como é que a gente constrói ferramentas tecnológicas capazes de colocar na mesma arena o decisor, a população e os dados que representam o problema?”, questiona ele. Para encontrar a resposta, o pesquisador acrescenta que existem diversas etapas para formar o que ele chama de "ecossistema de inovação da gestão urbana" e que garante essa governança: a fase de escuta ou coleta de dados; o controle sobre esses dados; a transparência sobre os dados; e o monitoramento.
Até o momento, foram duas as cidades que já receberam o hub de inovação: Campos dos Goytacazes e Cabo Frio. Entre estudos, análises e propostas, o tempo de implementação do projeto em cada cidade é de cerca de um ano e segue uma metodologia própria. Primeiro, vem a escuta, etapa em que são ouvidos a sociedade civil organizada e o cidadão comum, a academia e também os gestores, através de audiências públicas e reuniões. Essa análise serve para entender quais são as dores, os gargalos e as possibilidades de intervenção e mobilidade em cada local. A partir desta análise, vêm as sugestões propostas no estudo e sua implementação, que sugerem a melhoria do fluxo e mobilidade. “Em Cabo Frio, por exemplo, a gente entendeu que um sistema aquaviário entre o bairro Ogiva e o Centro – já que a cidade é entrecortada por uma lagoa –, e também a ampliação da ciclovia à beira-mar poderiam funcionar, desafogando o trânsito de veículos nas ruas e ampliando as possibilidades de deslocamento para os moradores,” relata. Ele ressalta que a ideia é que o projeto se estenda para mais cidades do estado, sempre observando as potencialidades e particularidades de cada local.
Numa análise mais ampla sobre o trânsito nas grandes cidades brasileiras, especialmente no Rio de Janeiro, e sobre o aumento exponencial na circulação de motocicletas, ciclomotores e bicicletas elétricas, Matheus observa que o crescimento da frota de veículos individuais é fruto de um histórico processo de degradação no transporte público que vem ocorrendo desde o final dos anos 90 e tem o seu ápice em meados de junho de 2013, com o crescimento real das tarifas. Processo esse que se intensificou com a pandemia, havendo uma redução drástica na oferta de transportes coletivos e uma mudança de hábitos provocados pelo distanciamento social, como o crescimento da demanda por motos, entregas e deslocamentos individuais. Soma-se a esse cenário, um aumento da disponibilidade de motocicletas, veículos elétricos leves, com baterias duráveis, custo mais acessíveis e com boa autonomia para circular pela cidade em pequenas ou longas distâncias, gerando economia de tempo e dinheiro.
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| Em Campos dos Goytacazes, população participa de evento de escuta para debater soluções visando a melhora da mobilidade urbana (Foto: Divulgação Acervo de Pesquisa) |
Para ele, a solução começa na repactuação do sistema, dando prioridade ao coletivo, com a ampliação de ciclovias, criação de espaços pedonais de qualidade, construção de passarelas e implementação da tarifa zero no transporte público. “A gente precisa entender que o financiamento do transporte público não pode sair do bolso do usuário e existem diversos modelos mundo afora que deram certo e estudos consistentes no Brasil, abordando estimativas de custo, formas de financiamento e sua implementação que demonstram que é possível e viável.”
Outro ponto que o pesquisador defende para a construção de um trânsito mais seguro, menos caótico e menos violento é a redução dos limites de velocidade nas vias urbanas, acompanhado de melhorias das placas de sinalização e redesenho dos espaços e vias públicas, priorizando sempre os pedestres. Ele cita como exemplo e referência mundial o caso da cidade de Fortaleza, que investiu em mobilidade sustentável e conseguiu reduzir pela metade as mortes no trânsito em dez anos.
“Quando a gente investe em ações e iniciativas para uma mobilidade sustentável e reduz os índices de acidentes e mortalidade no trânsito das nossas cidades, estamos falando de economia em saúde pública, em redução nas filas do SUS, nas indenizações e aposentadorias por invalidez. Dinheiro este que pode ser reinvestido em ciclovias, passarelas, travessias, calçadas, ou seja, reorganizar o espaço viário de forma a dar prioridade e segurança ao mais fraco”, pontua.