Claudia Jurberg
![]() |
| Estudo realizado na Uerj investiga como a presença das jaqueiras altera a estrutura do chão da floresta e afeta diferentes espécies de sapos que vivem na serapilheira (Foto: Divulgação) |
Espécies invasoras são uma das principais ameaças à biodiversidade no mundo. Ao se espalharem fora de sua área de origem, elas alteram habitats, reduzem a diversidade nativa e comprometem o funcionamento dos ecossistemas. Na Mata Atlântica brasileira, uma dessas espécies é a jaqueira. Seus impactos sobre a vegetação já são conhecidos. No entanto, ainda sabemos pouco sobre o que acontece com os animais que vivem no chão da floresta, um dos ambientes mais sensíveis e importantes para a biodiversidade tropical.
Um grupo de cientistas do Departamento de Ecologia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicou recentemente um estudo no periódico Biological Invasion sobre uma pesquisa realizada na Reserva Biológica de Duas Bocas, no Espírito Santo.
Coordenado pela pesquisadora na área de ecologia de comunidades e conservação da biodiversidade, Juliane Pereira Ribeiro, o estudo investiga como a presença da jaqueira altera a estrutura do chão da floresta e como essas mudanças afetam diferentes espécies de sapos que vivem na serapilheira.
Efeito cascata sobre a fauna
Os resultados mostram que a jaqueira simplifica o habitat, reduz recursos essenciais e desencadeia efeitos em cascata sobre a fauna. E nem todas as espécies respondem da mesma forma. "Áreas dominadas por jaqueiras apresentam uma camada de folhas mais rasa e menor abundância de artrópodes, como insetos e outros invertebrados. Esses organismos são fundamentais para o funcionamento do ecossistema. Eles também servem de alimento para muitos pequenos vertebrados", afirma Juliane.
![]() |
| A Rhinela crucifer foi uma das três espécies de sapos analisadas no estudo conduzido por pesquisadores da Uerj (Foto: Divulgação) |
Ela explica que quando a serapilheira diminui, o ambiente fica mais simples. Micro-hábitats desaparecem. A retenção de umidade cai. As condições se tornam menos estáveis para espécies sensíveis. Ou seja, mesmo quando a floresta parece verde por cima, o que acontece no chão conta outra história. "Analisamos três espécies de sapos com diferentes exigências ecológicas. As respostas foram distintas. Uma espécie mais generalista, conhecida pelo nome científico de Rhinella crucifer, e tolerante a ambientes alterados, foi registrada com maior frequência em áreas invadidas.
Já a espécie Haddadus binotatus, reconhecida como mais dependente de micro-hábitats úmidos e estáveis, apresentou queda acentuada onde a densidade de jaqueiras era maior. A terceira espécie que estudamos foi a Proceratophrys schirchi e percebemos que não foi afetada diretamente pela presença da árvore. No entanto, sua ocorrência estava associada à profundidade da serapilheira e à diversidade de artrópodes. Como esses dois fatores diminuem em áreas invadidas, a espécie acaba sendo afetada indiretamente", conta.
De acordo com Juliane, isso mostra que o impacto pode ocorrer por caminhos menos visíveis. A árvore modifica o habitat. O habitat modifica as espécies. Segundo ela, é importante destacar que o fato de uma espécie persistir em áreas invadidas não significa que a invasão seja benéfica. Muitas vezes, o que ocorre é um favorecimento de espécies mais tolerantes à degradação, enquanto as mais especializadas desaparecem.
![]() |
| Juliane Ribeiro: para a coordenadora do estudo, resultados obtidos pela pesquisa reforçam que a jaqueira representa uma ameaça real à biodiversidade da Mata Atlântica (Foto: Divulgação) |
"Esse processo pode levar à chamada homogeneização biológica. Comunidades passam a se parecer cada vez mais entre si, dominadas por poucas espécies generalistas. A diversidade funcional diminui. Na prática, a jaqueira atua como um filtro ecológico. Ela empobrece o habitat e seleciona quais espécies conseguem persistir. O resultado é uma floresta menos diversa, menos complexa e potencialmente menos resiliente a mudanças futuras", diz.
Para Juliane, os resultados reforçam que a jaqueira representa uma ameaça real à biodiversidade da Mata Atlântica. Sua presença altera não apenas a vegetação, mas também o funcionamento do ecossistema. Ela destaca que o manejo de espécies invasoras precisa considerar esses efeitos indiretos sobre a fauna. A remoção continua sendo fundamental, especialmente em áreas protegidas. Mas deve ser acompanhada por ações que restaurem a complexidade do habitat, como a recuperação da serapilheira e da vegetação nativa do sub-bosque. Sem esse cuidado, há o risco de resolver um problema e criar outro.
Para a pesquisa, Juliane contou com o apoio de uma bolsa de Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ e da Rufford Foundation.