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Publicado em: 03/06/2026 | Atualizado em: 03/06/2026

Biodetergente promete prolongar a vida útil de frutas e legumes

Paula Guatimosim

Estudo do laboratório na UFRJ busca soluções que promovam a integração academia–indústria no modelo de inovação aberta e valorização de recursos renováveis, promovendo pesquisa aplicada com impacto científico, tecnológico e social (Fotos: Divulgação)

As perdas ao longo da cadeia de produção de alimentos são um gargalo a ser superado e geram prejuízos que podem alcançar US$ 540 bilhões em 2026, segundo a consultoria Datagro. Mais de 30% do volume de alimentos entre a colheita e a chegada ao consumidor se perdem, gerando um prejuízo equivalente no faturamento anual da cadeia de suprimentos. No caso de alimentos perecíveis como frutas, legumes e verduras, dados da Embrapa indicam perdas de 30% em média na etapa pós-colheita, principalmente por manuseio, transporte e armazenamento inadequados. Isso, num país tropical como o Brasil, pode acelerar o ataque de fungos e bactérias e a deterioração dos alimentos.  

Mas a pesquisa pode mudar este cenário. O Laboratório de Biotecnologia Microbiana do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaBiM/IQ/UFRJ), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu um biodetergente capaz de prolongar a vida útil de frutas e legumes, contribuindo diretamente para a redução do desperdício de alimentos. O produto consegue impedir a ação dos fungos. “É como se o biossurfactante ‘desorganizasse’ a estrutura do fungo, impedindo sua proliferação e aumentando o tempo de prateleira das frutas”, explica a professora titular do Instituto de Química Denise Maria Guimarães Freire. Nos testes, laranjas foram infectadas com injeções de fungos e depois protegidas com o biodetergente aplicado na casca. Após 10 dias, de cada 12 laranjas testadas, 11 ficaram intactas.

Biodetergente criado no laboratório prolongou a vida útil da laranja inoculada com fungo. Após 10 dias, de 12 laranjas testadas, 11 ficaram intactas

A pesquisadora conta que os estudos tiveram início em 2009, época em que a Petrobras identificou uma bactéria em poços de petróleo com potencial para mitigar o efeito de derramamento de petróleo e metais pesados em ambientes terrestres e aquosos. Foi no Laboratório que a bactéria começou a ser estudada em diferentes meios de cultivo e mostrou possuir “1001 utilidades, um verdadeiro Bombril”, alega a pesquisadora, que é Cientista do Nosso Estado da FAPERJ e já contou com diversos apoios da Fundação para conduzir suas pesquisas, como do Programa de Apoio a Projetos Temáticos no Estado do Rio de Janeiro.

Denise Freire explica que não há mais dúvida quanto à eficácia do biodetergente, mas que a produção atual de 100 litros no LaBiM é totalmente insuficiente para atender ao mercado. No caso das laranjas, por exemplo, o produto poderia ser adicionado pelas indústrias à água da lavagem das frutas no pós-colheita, protegendo toda a produção. “Chegamos num estágio em que não conseguimos avançar sem apoio financeiro para viabilizar os testes em campo. É como se estivéssemos à beira de um rio caudaloso, sem ponte para atravessar”, afirma Denise, que já foi procurada por cinco agricultores, incluindo produtores de mamão e morango, interessados no biodetergente. Segundo ela, o próximo passo, também em parceria com a Embrapa, será o teste em grãos como soja, feijão e milho.

Essa pesquisa está alinhada às pesquisas do Hub de Inovação Aberta em Bioprodutos do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT HOI-B), que desenvolve tecnologias limpas e inovadoras para síntese, recuperação, concentração e purificação de bioprodutos. Social e ambientalmente sustentáveis, as tecnologias limpas reduzem resíduos, priorizam sistemas aquosos de baixa toxicidade e biodegradáveis, alinhados à Química Verde e à Economia Circular, como opção aos produtos químicos usualmente utilizados nas mesmas aplicações. O INCT HOI-B atua no desenvolvimento de soluções estratégicas em biotecnologia industrial, integração academia-indústria no modelo de inovação aberta e valorização de recursos renováveis, promovendo pesquisa aplicada com impacto científico, tecnológico e social.

A coordenadora do HOI-B diz que outros antifúngicos estão sendo pesquisados no laboratório, como a levedura Metschnikowia pulcherrima e a substância obtida de outro microrganismo, chamada cerulenina. Ambas se mostraram bastante promissoras nos testes in vitro de biocontrole pós-colheita. Denise destaca outras pesquisas desenvolvidas no Laboratório, como a encomendada pela Sinochem, estatal chinesa especializada em petroquímica, agricultura e energia, entre outros, que, no Brasil, atua principalmente na exploração de petróleo e gás através da Sinochem Petróleo Brasil. A empresa necessitava de um produto que separasse melhor o óleo e a proteína, aumentando a recuperação de ambos sem afetar a produção de etanol à base de milho. Essa pesquisa resultou no registro de duas patentes da UFRJ com a empresa. Em parceria com a empresa de ingredientes para cosméticos Assessa, o LaBiM vem desenvolvendo, com o apoio do INCT, ingredientes sustentáveis a partir de resíduos agroindustriais, promovendo a valorização desses resíduos e a geração de produtos de alto valor agregado.

Denise Freire: segundo a pesquisadora, é como se o biossurfactante ‘desorganizasse’ a estrutura do fungo, impedindo sua proliferação e aumentando o tempo de prateleira das frutas

“O estudo explora o uso de biossurfactantes como uma solução ‘dois em um’: além de aumentar a extração de compostos antioxidantes de coprodutos, eles também atuam como agentes tensoativos na formulação, com menor toxicidade e maior sustentabilidade em comparação aos surfactantes convencionais”.

O grande desafio está no apoio dos editais e programas de fomento à transição das pesquisas que já estão em fase de TRL (Technology Readiness Level) alta, ou seja, alto nível de maturidade para o mercado. Este é o caso da produção do biodetergente que já se encontra em TRL 6. O próximo desafio é desenvolver uma formulação inovadora com o biodetergente para ser testada em larga escala. Destaque no ranking Research.com como uma das pesquisadoras mais influentes do mundo em sua respectiva área de conhecimento, a engenheira química Denise Freire destaca que o investimento em novas tecnologias pode gerar retornos muito superiores ao valor inicialmente aportado na pesquisa.

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