Marcos Patricio
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| Os representantes de startups apoiadas pela FAPERJ se revezaram no Palco Disruptivo para apresentar o andamento de seus projetos para o público da RIW 2026. Equipes mostraram soluções inovadoras para resolver uma série de necessidades da sociedade (Fotos: Marcos Patricio) |
Empreendedores de todo o estado do Rio de Janeiro, vinculados ao programa HUB RJ Startup, da FAPERJ e da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), participaram, pelo segundo ano consecutivo, do Rio Innovation Week (RIW). Startups selecionadas para a terceira e última fase do edital apresentaram aos visitantes do RIW 2026 o andamento de produtos e serviços que estão sendo desenvolvidos para solucionar problemas enfrentados pela sociedade em diferentes setores.
Ao longo de três dos quatro dias do evento, as startups levaram ao Palco Disruptivo, no Armazém 5 do Píer Mauá, um pouco do trabalho realizado pelas equipes. De acordo com o coordenador executivo do programa HUB RJ Startup, José Wilson Coura, as apresentações são uma mostra representativa do amadurecimento dos projetos. “As startups avançaram bastante no desenvolvimento de seus produtos ou serviços durante as duas primeiras fases do edital”, afirmou Wilson Coura. Segundo ele, as exibições apontam uma diversidade de soluções para demandas relacionadas à saúde, meio ambiente, mobilidade urbana, gestão hospitalar, comércio, entre outras áreas.
Quem acompanhou as apresentações pôde ver que, muitas vezes, a decisão de empreender surge das dificuldades observadas diariamente no trabalho. É o que mostrou a bióloga Bruna Romana, professora dos programas de pós-graduação em Biociências e em Fisiopatologia Clínica e Experimental da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Éramos procurados por empresas de pequeno porte de produtos cosméticos e farmacêuticos interessadas em realizar testes solicitados pela Anvisa, mas tinham dificuldade devido ao alto custo dos ensaios”, explica Bruna, que realiza trabalhos com pele humana.
Bruna e o pesquisador Sérgio Henrique Seabra, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), que atua em projetos de impressão de pele 3D, viram no edital HUB RJ Startup uma oportunidade e criaram a Skintests (@skintests2026). A startup produz modelos in vitro de pele biológica e artificial e realiza testes mais baratos e confiáveis sem o uso de animais. A empresa, que já está atendendo os primeiros clientes, utiliza pele humana descartada após cirurgias e realiza testes para verificar se as substâncias usadas em remédios e cosméticos são tóxicas ou não, por um valor bem menor do que os R$ 45 mil cobrados, em média, pelo mercado.
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| Bruna Romana (SkinTests) e Luis Ertler (OrigginWatch): selecionados para a Fase 3 do edital HUB RJ Startup da FAPERJ, os empreendedores mostraram um pouco de seus projetos. A bióloga falou sobre pele biológica e artificial para testes; e o engenheiro, sobre plataforma de telemetria que monitora máquinas de café |
Quem dá uma parada para tomar um cafezinho pode até não saber, mas há alguns segredos para operar corretamente as máquinas de ‘café espresso’ que, se ignorados, podem comprometer o sabor da bebida. “A extração do café nas máquinas não pode durar menos de 22 segundos, para não perder as características e propriedades do grão, nem ultrapassar 26 segundos, para não queimar. O ideal é que seja feita em 24 segundos”, explicou em sua apresentação o engenheiro de Sistemas e Computação, Luis Ertler, da OrigginWatch. A startup oferece uma plataforma de telemetria, que monitora a qualidade da extração de ‘café espresso’ em equipamentos profissionais.
A empresa desenvolveu uma plataforma capaz de monitorar, em tempo real, parâmetros do preparo do café, como o tempo e a temperatura, e um dispositivo IoT, que conecta as máquinas à plataforma. Uma ferramenta de apoio para donos de estabelecimentos, gestores de redes de cafeterias, empresas de aluguel de máquinas e baristas. No Brasil, há mais de 13 mil cafeterias utilizando máquinas profissionais. “Não havia nenhuma métrica que traduzisse em dados a qualidade do ‘café espresso’ comercializado nos estabelecimentos”, afirmou Ertler. Criada a partir da Origgin, empresa que importa e aluga equipamentos profissionais, a OrigginWatch já tem um protótipo do dispositivo conectado à plataforma em fase de testes no Rio de Janeiro. No futuro, o plano é usar a tecnologia no monitoramento de moinhos de café e de lavar louças para evitar o desperdício de insumos.
Outra empresa impulsionada pelo edital HUB RJ Startup, a InovaResp desenvolveu uma solução para mitigar os efeitos de um dos gargalos da área da Saúde no Brasil: a dificuldade de acesso a exames de avaliação pulmonar. Criada pelos fisioterapeutas Danilo Rufino e Cinara Castello, a empresa é uma health tech de diagnósticos respiratórios itinerante, cuja proposta é levar a espirometria – exame para avaliar a capacidade respiratória – diretamente à população. Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), foram realizadas apenas 11.423 espirometrias, em 2025, no Rio de Janeiro, município que abriga 6,7 milhões de pessoas. A startup desenvolveu uma plataforma, ainda em fase de validação, que integra unidades móveis, telemonitoramento e inteligência de dados.
“O cigarro atual é o ar que a gente respira”, comparou Cinara, em sua apresentação, alertando para o mal causado pela poluição à capacidade pulmonar. A poluição do ar e o tabagismo contribuem diretamente para a elevação do número de casos de problemas pulmonares, como a asma e a Doença Respiratória Obstrutiva Crônica (DPOC). Ainda segundo o SUS, no ano passado, foram registradas mais de 17 mil internações e 6 mil óbitos por males pulmonares na cidade do Rio de Janeiro. Daí a importância de ampliar o acesso aos exames. A proposta da startup é buscar parcerias e, no futuro, expandir o serviço para outros estados.
A saúde pública também é o foco do trabalho realizado pela startup Tecnologias Médicas. A empresa criou um sistema destinado à gestão inteligente da Atenção Primária à Saúde (APS), que é o segmento responsável por consultas de rotina, pela aplicação de vacinas e por atividades de prevenção realizadas fora dos hospitais, em postos de atendimento e em unidades básicas de saúde. Como o repasse das verbas federais do SUS para as prefeituras, nesse segmento, está diretamente ligado a um conjunto de sete indicadores, a startup desenvolveu o Saúde Conecta +, solução destinada a fazer o levantamento e o mapeamento dos indicadores municipais de APS. Os potenciais clientes são as secretarias de Saúde dos mais de 5.500 municípios brasileiros.
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| Cinara Castello (InovaResp) e Ricardo Martins (Tecnologias Médicas): sócios de startups, os dois apresentaram plataformas voltadas à área da Saúde. Soluções buscam, respectivamente, agilizar o acesso a exames e melhorar a gestão da Atenção Primária à Saúde |
“Os municípios perdem, anualmente, milhões de reais em repasses federais por dificuldade no registro e pela má gestão desses indicadores”, explicou o engenheiro Ricardo Martins, sócio da startup e mestre em Inteligência Artificial. Segundo ele, os recursos repassados pela FAPERJ estão sendo utilizados para a contratação de programadores, em segurança da informação e no desenvolvimento da ferramenta, que trabalha com dados extraídos do sistema E-SUS, do Ministério da Saúde. Uma versão beta está sendo testada em Maricá, onde o Saúde Conecta + deve ser implantado em breve. A startup também está negociando para levar o serviço às cidades de Rio Bonito e Duque de Caxias.
Uma necessidade do dia a dia também motivou a criação de outra empresa apoiada pelo edital HUB RJ Startup. A startup Uthic desenvolveu um App com georreferenciamento para armazenamento temporário de bagagens. “A rede conecta quem tem necessidade de deixar a bagagem em um local seguro e quem tem espaço ocioso para guardá-la por algum tempo”, explica a criadora da rede, a advogada Rosana Ramos. O serviço é ideal para quem chegou em seu destino antes da hora do check-in em hospedagens de aluguel e deseja fazer um deslocamento sem carregar as malas. Atende também àqueles que já fizeram o check-out e ainda precisam transitar pela cidade antes da hora de embarcar.
“A ideia surgiu de uma viagem que eu e meu marido fizemos à Dinamarca. Aproveitamos o último dia, em Copenhague, para visitar o parque Tivoli, um dos mais tradicionais da Europa, antes de embarcar. Pagamos algumas coroas dinamarquesas para deixar as bagagens no guarda-volumes do aeroporto. Foi caro”, lembra Rosana. Segundo ela, a proposta da rede é ser uma alternativa econômica e prática aos guarda-volumes. A ideia é cobrar R$ 20 pela diária. A rede já conta com 30 estabelecimentos cadastrados nos bairros de Copacabana e Ipanema. São bares, cafeterias, restaurantes e lojas, que possuem espaço e podem ganhar uma receita extra para guardar as malas. Uma versão beta já está sendo testada em um parceiro, em Copacabana. A intenção da Uthic é levar o serviço para novos locais e agregar diferentes serviços à rede, como guardar outros itens e fazer o transporte de bagagens. O lançamento do App deve acontecer até o início de 2027.
Outro empreendedor que transformou as dificuldades enfrentadas no dia a dia em oportunidades para realizar novos negócios foi Gabriel Borgongino. Ator e comunicador, Gabriel buscava editais na área de cinema para estruturar um projeto. Não encontrou em sua área, mas notou que havia várias oportunidades na venda de produtos e serviços para o governo. Mesmo sem entender sobre licitações, Borgongino resolveu encarar um novo papel: o de Microempreendedor Individual (MEI). Estudou o processo de licitação, pesquisou sobre logística e conseguiu ganhar sua primeira licitação para vender sabonetes, sem nunca ter fabricado um.
Gabriel ganhou outras licitações, cresceu, trocou sua MEI por uma empresa e, recentemente, se aventurou em um novo negócio: criou uma edtech e um método com orientações valiosas para quem deseja vender para o maior comprador do País, o governo. O Método Venda para o Governo (Método VPGOV) tem a proposta de facilitar o acesso ao mercado de compras públicas no Brasil. “Montamos uma plataforma educacional para os interessados em participar de licitações, com o passo a passo para vender ao governo desde o zero”, explicou. Gabriel está aprimorando o curso, que já está disponível em um marketplace de infoprodutos.
A capacidade de as equipes desenvolverem soluções para as demandas existentes na sociedade e a variedade de propostas foi destacada pela diretora de Tecnologia da FAPERJ, Elaine Souza. “O que mais tem chamado a atenção é a capacidade dos empreendedores de transformar uma ideia em uma solução estruturada. Como este é um programa voltado à ideação, é muito interessante acompanhar esse processo de evolução. Muitas equipes chegaram com uma percepção de um problema e, ao longo da jornada, conseguiram definir melhor sua proposta de valor, entender o público-alvo, validar hipóteses e desenhar soluções muito mais aderentes às necessidades do mercado. Também chama atenção a diversidade de temas e o potencial de impacto dessas ideias para o estado do Rio de Janeiro”, afirmou Elaine.
Programa fortalece ecossistema de inovação fluminense
Lançado oficialmente em março do ano passado, o programa HUB RJ Startup 2025 – Apoio à Difusão de Ambiente de Inovação em Tecnologia Digital no Estado do Rio de Janeiro foi dividido em três etapas e se estenderá por 64 semanas. Dos 246 projetos selecionados para a primeira fase, 143 chegaram à Fase 3 do programa, iniciada em junho passado. A FAPERJ investiu até R$ 30 mil em cada projeto classificado para a segunda fase do edital. Agora, a Fundação irá aplicar até R$ 50 mil em cada uma das propostas que se credenciaram para a etapa final.
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| Gabriel Borgongino (Método VPGOV) e Rosana Ramos (Uthic): durante a terceira fase do edital, os empreendedores vão concluir os serviços oferecidos por suas startups. Gabriel falou sobre o método para ajudar empresários a vender para o governo; e Rosana apresentou a rede de armazenamento temporário de bagagens |
A diretora de Tecnologia da FAPERJ enfatizou as contribuições do edital. “O maior mérito do programa é, justamente, oferecer uma jornada estruturada de desenvolvimento para quem ainda está na fase inicial do empreendedorismo. O edital não seleciona apenas boas ideias; ele cria um ambiente para que essas ideias sejam testadas, questionadas, aprimoradas e amadurecidas. As avaliações por etapas permitem acompanhar essa evolução e incentivam os empreendedores a entregarem resultados consistentes. Esse formato fortalece o ecossistema de inovação do estado, porque ajuda a transformar ideias promissoras em startups mais preparadas para os próximos desafios, seja em editais de subvenção econômica, seja na busca por investimento privado ou inserção no mercado”, explicou Elaine Souza.
De acordo com o coordenador executivo do HUB RJ Startup, na Fase 3 do programa, as equipes das startups vão concluir o desenvolvimento de seus produtos e serviços. “Na Fase 3, as startups continuarão a receber mentorias, capacitações e acompanhamento da equipe do programa. A diferença é que, agora, o foco fica muito mais prático: desenvolver e validar o Produto Mínimo Viável (MVP), testar canais de venda, buscar os primeiros clientes, organizar melhor a operação e preparar a startup para chegar ao mercado com mais segurança”, explicou Wilson Coura.
Para Elaine Souza, as orientações e treinamentos oferecidos até aqui contribuíram para o desenvolvimento dos participantes. “A evolução é bastante perceptível. Um dos principais ganhos foi a mudança de mentalidade. Muitos iniciaram o programa muito focados na ideia e terminaram entendendo que empreender exige validação constante, conhecimento do mercado e capacidade de adaptação. Ao longo das capacitações e mentorias, vimos empreendedores refinando suas hipóteses, ajustando seus modelos de negócio e aprendendo a ouvir o mercado antes de desenvolver uma solução definitiva. Esse amadurecimento é extremamente valioso, porque aumenta significativamente as chances de essas iniciativas se tornarem negócios sustentáveis no futuro”, concluiu a diretora de Tecnologia da FAPERJ.