Paula Guatimosim
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| Felipe Vigoder e Beatriz Passos, contemplados pelo Dr. Empreendedor, anunciaram a inauguração, em breve, de um laboratório compartilhado de Deep Tech, em Niterói (Fotos: Paula Guatimosim/Faperj) |
As apresentações no Palco Future, no Pavilhão Kobra da RIW, reuniram empreendedores apoiados por diversos editais da FAPERJ. Parceiros em editais focados na integração entre academia e mercado apresentaram resultados, ao lado dos assessores da Diretoria de Tecnologia da FAPERJ Guilherme Santos e Marcelo Corenza.
Representando o Programa Dr. Empreendedor, lançado pela FAPERJ em 2019 e que já conta com cinco edições e 120 empresas incentivadas, os palestrantes Felipe Vigoder, da empresa Biofy, e Maria Beatriz Póvoa Passos, que desenvolve cosméticos à base de ativos naturais, anteciparam que será inaugurado, em breve, um laboratório compartilhado de Deep Tech, em Niterói. O Infralab vai funcionar como um coworking de tecnologia e inovação, onde empresas inseridas na Rede Doutor Empreendedor poderão usufruir de toda infraestrutura de equipamentos fundamentais para auxiliar na cadeia de validação de seus produtos. A Rede foi criada pelos próprios participantes do programa, que, em sua segunda fase, contemplou 48 empresas. Com cerca de 30 funcionários e atuação em 23 estados brasileiros, a Biofy atua no controle de qualidade da água, alimentos e cosméticos. Segundo Felipe, que além de CEO da empresa é tesoureiro da Rede, o mais importante no empreendedorismo é o networking e, por isso, a Rede ganha relevância. “Todos saímos da academia e dividimos nossas experiências e dificuldades”, explica Felipe. Já Beatriz, cujo doutorado acadêmico foi na área de Inovação, disse que sua principal dificuldade era saber como se inserir no mercado, mas que a Rede fez toda a diferença, e a ajudou bastante.
Outra apresentação mostrou a Inteligência Artificial na Prática: como startups estão resolvendo desafios municipais. A Octa City, contemplada no edital Prioridade Rio da FAPERJ, desenvolve sistemas de monitoramento urbano baseado em IA, como por exemplo, o cálculo do tempo de escoamento da água em vias públicas alagadas no Rio de Janeiro e em outros municípios. Segundo seu fundador, Otávio Flaeschen, a apoio da FAPERJ foi fundamental para a expansão da Octa City, cujo modelo de negócio prevê a replicabilidade das soluções em outros municípios, nas áreas da Defesa Civil, Segurança Pública e Monitoramento Viário. Já Felipe Murad, da MindSim, oferece serviço de gestão de ativos com o uso da IA. São sistemas de gestão e previsão de ocorrências e riscos que podem gerar economia de R$ 10 milhões . Como uma bola de cristal, mostra às empresas o que, por que e quando eventos irão acontecer tanto nos processos (previsão) quanto no planejamento (manutenções). Segundo Murad, os dois softwares são capazes de aumentar a produtividade em 10%, como por exemplo, na coleta de lixo na cidade do Rio de Janeiro.
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| Os coordenadores do Programa PISTA mostraram os resultados nos cinco territórios contemplados no edital: Rocinha, Alemão, Maré, Cidade de Deus e Petrópolis |
O programa PISTA (Parque de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental): Conectando Territórios Inovadores, da FAPERJ, em parceria com a Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS), foi representado pelos coordenadores de cada um dos cinco territórios contemplados no edital: Rocinha, Alemão, Maré, Cidade de Deus e Petrópolis. O objetivo é apoiar projetos de inovação social e desenvolvimento local nessas comunidades, que já abrigam mais de 100 diferentes projetos.
Representando o Complexo da Maré, Alberto Aleixo explicou que a etapa de mobilização e sensibilização da comunidade foi bastante difícil, devido à complexidade da linguagem típica do edital, com a qual as pessoas não tinham familiaridade. Superada essa fase, a Maré tem hoje em andamento 21 projetos, a maioria focada em reaproveitamento de resíduos (o lixo é um problema recorrente nas favelas), economia circular, saneamento sustentável, entre outros, e interagindo com uma série de agências de apoio e/ou fomento, como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Agenda 2023 da ONU. Segundo Aleixo, há seis meses o programa vem apoiando a incubação de projetos e agora foca na ampliação do projeto para macroprocessos.
No Complexo do Alemão, 21 projetos contemplados já estão integrados a quatro empresas. “O PISTA tem um importante diferencial: considera o que existe na comunidade e, mais importante, veio para ficar”, afirma o coordenador do programa no Alemão, o advogado Carlos Dutra. Ele destaca o apoio da Incubadora Pólen, da Unisuam; e da Ninho Incubadora Social como fundamentais parceiros do projeto, que já influencia os arredores do Complexo. “Favela é potência”, concluiu Dutra.
Tales Gomes, representante de Petrópolis, lembrou que, ao lado da ideia de que Petrópolis ainda guarda muito da cidade imperial, o município convive com muitas áreas vulneráveis. Segundo ele, o PISTA contemplou 22 projetos, muitos deles focados na sustentabilidade, como, por exemplo, a reciclagem de vidro e papel. “A gente percebe claramente as mudanças nos territórios”, diz Gomes, destacando que a grande vantagem do PISTA é sua característica endógena, ou seja, respeitando as demandas de dentro para fora dos territórios.
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| Abacaxi produzido no Norte Fluminense é um dos produtos candidatos a obter o selo de Indicação Geográfica (Foto: Heraldo Pessanha) |
Izabela Botelho, coordenadora do PISTA na Rocinha, afirma que o programa alocou recursos para a comunidade de inovação, gerando acesso e oportunidade social para diversas iniciativas. “A favela sempre criou e produziu, mas faltava ser vista”, disse a articuladora territorial e desenvolvedora de empreendedorismo de impacto social. Izabela lembra que, segundo dados do Sebrae, a economia criativa nas comunidades brasileiras gerou mais de R$ 300 bilhões ao ano, valor maior que a renda de 22 estados brasileiros e que o PIB de países como Paraguai ou Bolívia.
O Programa de Apoio à Estruturação e Consolidação de Indicações Geográficas (IGs) visa à valorização de produtos ou serviços característicos de uma região ou lugar específico seja pela tradição, seja pelo modo de fazer e características únicas do produto ou serviço. Gerente de projetos de Indicações Geográficas do Sebrae, Aline Barreto, alega que sem a ajuda da FAPERJ dificilmente os produtores fluminenses conseguiriam arcar com os custos para protocolar o pedido de IG junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). De acordo com ela, o País possui 162 produtos com Indicações Geográficas reconhecidas, como o famoso queijo da Canastra.
No estado do Rio de Janeiro, Aline destaca produtos como o café, abacaxi, farinha de mandioca, Arroz Anã, tainha, laranja, e até a moda íntima como produtos com potencial para obterem IGs. Em segunda edição, o programa da FAPERJ aprovou 45 projetos e aprimorou a Faixa B, voltada para a consolidação de IGs já apoiadas: o abacaxi produzido no Norte Fluminense e a farinha de mandioca de São Francisco de Itabapoana. Entre os novos pedidos aparecem o chuvisco de Campos dos Goytacazes, o aipim de Santa Cruz, a goiaba de Cachoeiras de Macacu, mel, aipim e até o quibe produzido em Italva, município a noroeste do estado colonizado por imigrantes sírio-libaneses.
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| Ronaldo Pedro: o criador da ConvergeLab anunciou evento sobre deep tech em parceria com a FAPERJ |
Na quinta-feira (6/8), o Palco Future foi aberto com a apresentação do doutor em Engenharia de Produção Ronaldo Pedro da Silva, criador da ConvergeLab, uma aceleradora de startups deep tech, dedicada a “fazer a ponte” entre a ciência e o empreendedorismo. Ele falou sobre o perfil dessas empresas, desenvolvedoras de inovações baseadas em descobertas científicas complexas e engenharia avançada. Ronaldo Pedro, que recebeu prêmio de Líder de Inovação pela FAPERJ, explicou que o futuro da inovação não será definido por tecnologias isoladas, mas pela capacidade de combinar, convergir e escalar diferentes competências, setores e infraestruturas. Segundo ele, a deep tech nasceu para atender uma demanda do mercado financeiro, que lida com dados sigilosos, sendo especializadas em “dados sensíveis, ou seja, protegidos pelo sigilo na sua origem”. Ronaldo Pedro lembrou que o Brasil ainda é altamente dependente de importações de equipamentos na área da Saúde, e que esse é um nicho para o desenvolvimento de deep tech. “No atual estágio brasileiro, precisamos de estruturas para reduzir riscos”, alegou.
Entre os desafios da jornada fragmentada da inovação regulada, Ronaldo elencou a inadequação regulatória, o muro (barreira) dos dados sensíveis (que não podem vazar), e o risco da escala (possibilidade de falha quando a tecnologia chega ao chão da fábrica ou aos hospitais). Segundo ele, nos setores farmacêutico e de saúde, os dados mais valiosos para inovar são justamente aqueles que não podem ser compartilhados livremente, como os dados clínicos, laboratoriais, regulatórios, industriais, toxicológicos e proprietários, protegidos por barreiras legais, éticas, comerciais e estratégicas.
Em contrapartida, é exatamente o acesso a esses dados que podem favorecer a medicina personalizada, a pesquisa clínica multicêntrica, e a descoberta de novos medicamentos, entre outros. Ronaldo antecipou que a ConvergeLab, em parceria com a plataforma Open Health da UCL Global Business School for Health (GBSH), com organização da NanoBusiness e da InsilicALL e apoio da FAPERJ, vai realizar em outubro deste ano o ConvergeLab Open Health Summit, visando posicionar a computação federada, a IA regulada, a governança de dados sensíveis e os novos modelos de colaboração segura como pilares de uma nova infraestrutura estratégica para inovação aberta em setores altamente regulados.
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| Reitor da PUC-Rio: para o padre Anderson Antonio Pedroso, quem escuta só os líderes de mercado já está atrasado |
Em seguida, o reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), o padre jesuíta Anderson Antonio Pedroso falou sobre a contribuição da PUC para o ecossistema de inovação no Rio de Janeiro. A universidade possui diversas iniciativas, como a incubadora Gênesis e o Instituto Ecoa, tanto no fomento da inovação tecnológica, quanto na preservação do meio ambiente, além de diversos projetos sociais. Padre Anderson valeu-se do exemplo da técnica milenar japonesa do Kintsugi (ou Kintsukuroi), na qual peças de cerâmica quebradas são restauradas com uma laca especial misturada com pó de ouro, para fazer um paralelo com a resiliência e com suas convicções. “Quem escuta só os líderes de mercado já está atrasado”, afirmou, defendendo o movimento de se observar anomalias. Ele também acredita na observação disciplinada para a identificação de potenciais, ou seja, “aquele que vê a semente e prevê a futura árvore” e a necessidade de se escutar as margens, as periferias, em todos os sentidos. Tudo isso alinhado a um discernimento ético e à escolha de pessoas. “Ulisses está dentro de nós”, disse o reitor, referindo-se ao herói da Odisseia.
O assessor da Diretoria de Tecnologia da FAPERJ Guilherme Santos, coordenou a mesa-redonda Dupla Hélice: Ciência e Negócios Construindo o Futuro, com Lucimar Dantas, da aceleradora do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC) e Tatiana Botelho, fundadora do Instituto Guayí Ventures. Elas falaram sobre como a dupla hélice pode promover a conexão entre a ciência e o mercado para acelerar deep techs e spin-offs. Tatiana, que sempre pensou em como alavancar o capital privado para apoiar startups iniciantes, contou que as grandes oportunidades da sua vida surgiram de conexões inesperadas, como foi quando pegou uma carona em um fila de táxi.
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| Tatiana Botelho, do Instituto Guayí, Lucimar Dantas, do IBMEC e Guilherme Santos, da FAPERJ: eles tentam reduzir as assimetrias entre a linguagem e o tempo, entre a academia e o mercado |
Já Lucimar lembrou que sua conexão inesperada foi em um coquetel da RIW, ao descobrir que uma antiga conhecida, Bruna Reis, era a diretora executiva do evento. Guilherme ressaltou que academia e mercado são dois mundos que dificilmente se encontram na fila do táxi e perguntou às participantes como aproximar essas partes. Para Tatiana, agora é o momento de olhar atentamente para as empresas que estão desenvolvendo tecnologia. “As pessoas de negócios vão ter que procurar essas empresas de tecnologia”, afirmou. Já Lucimar acredita que esse encontro requer uma capacidade de interação entre os dois lados. Guilherme ressaltou que tanto a linguagem quanto o tempo entre a academia e o mercado são bastante distintas. Deu o exemplo do Programa Dr. Empreendedor, da FAPERJ, que vem sendo aprimorado com a ajuda dos próprios participantes, que já estão reunidos em rede para a troca de experiências.
Enquanto as pesquisas levam anos para dar resultados, o mercado quer soluções rápidas; e a formalidade da linguagem acadêmica diverge do “economês” das empresas. “Para a tecnologia dar certo, precisa adesão do mercado”, resumiu Guilherme, acompanhado por Lucimar, que defende a agregação de habilidades, e Tatiana, para quem há falta de “polinização cruzada” nas universidades, ou seja, maior troca e interação entre as áreas.
Fechando o dia, o Palco InovaTech recebeu Julia Zardo, gerente de Ambientes de Inovação da Federação das Industrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), e Guilherme Santos, pela FAPERJ, para uma conversa sobre os desafios e oportunidades da transformação digital na indústria Fluminense. A parceria entre FAPERJ e Firjan aconteceu justamente para alavancar o Programa Pesquisador na Empresa. Para incrementar a participação das indústrias em editais da FAPERJ, foram realizados 8 workshops, que atraíram mais de 100 participantes de 80 organizações.
Desse total, 23 propostas foram submetidas, das quais, 16 contempladas, gerando 25 bolsas em indústrias. Guilherme chamou a atenção para o lançamento do edital Prioridade Indústria RJ 4.0, com submissão de propostas ainda aberta, um fomento para a transformação digital na indústria fluminense, que prevê a aplicação de recursos para projetos de, no máximo, R$200 mil, a serem executados em 24 meses, com contrapartida de 5% do orçamento.