Marcos Patricio
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Reunindo nove artigos assinados por jornalistas e pesquisadores do Brasil e da França, o livro traz elementos para pensar a produção, a circulação e o consumo de músicas populares na América Latina, entre 1933 e 1946, período em que o Brasil teve cerca de 80 cassinos (Imagem: Divulgação) |
Quando os cassinos fecharam suas portas no Brasil, em 1946, com a publicação do Decreto-Lei nº 9.215, que proibia a prática e a exploração dos jogos de azar no País, não foram apenas o giro das roletas e o ruído das fichas arrastadas sobre as mesas que deixaram de ser ouvidos. A proibição dos jogos silenciou, também, a voz de cantores e os instrumentos de músicos e orquestras que se apresentavam nos palcos dos luxuosos salões de apostas, nas décadas de 1930 e 1940.
Passados 80 anos da edição do decreto, no Governo Dutra, que proibia os jogos, chegará às livrarias, até o fim de 2026, o livro “O som dos cassinos”. A obra traz aos leitores elementos para pensar a produção, a circulação e o consumo das músicas populares na América Latina, entre 1933 e 1946, período em que o Brasil teve cerca de 80 casas de jogos. Organizado pela pesquisadora Suely Campos Franco, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EM/UFRJ), o livro reúne, em 214 páginas, nove artigos assinados por jornalistas e pesquisadores de diferentes instituições do Brasil e da França. O texto da contracapa é do jornalista e escritor Ruy Castro.
Impresso com auxílio do Programa de Apoio à Editoração da FAPERJ, o livro, publicado pela Numa Editora, é resultado do evento acadêmico “I Jornada Internacional O Som dos Cassinos – A circulação das músicas populares entre América Latina e Europa no século XX: apropriações e transferências culturais”, também organizado por Suely, em novembro de 2016, com a parceria do Museu da Imagem e do Som (MIS) e do Consulado da França, marcando os 70 anos da proibição dos cassinos no Brasil.
“A proposta do livro é mapear e refletir sobre a música dos cassinos, a produção e consumo das músicas populares na América Latina nos anos 1930 e 1940, e sobre a circulação de artistas, músicos e cantores brasileiros e estrangeiros entre o Rio de Janeiro e a Europa no período entre as duas Guerras Mundiais. A obra conta com ensaios dos pesquisadores que participaram da jornada internacional e de outros autores convidados”, explica Suely Franco, cientista social, mestre em Memória Social e doutora em Études Lusophonnes (História/Estudos Culturais) pela Universidade Paris 3 Sorbonne Nouvelle.
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| Artistas como Linda Batista, Grande Otelo, Herivelto Martins e Ary Barroso (ao piano) se apresentaram no Cassino da Urca, uma das mais famosas casas de jogos do Rio de Janeiro (Foto: Carlos Moskovics/Acervo Instituto Moreira Salles - IMS) |
A pesquisadora é autora do capítulo que mostra os cassinos como palco para músicos e cantores europeus que buscaram exílio no Brasil e em outros países do continente, no fim da década de 1930, por conta da Segunda Guerra Mundial. O ponto de partida da pesquisa de Suely Franco foi a viagem do maestro francês Ray Ventura e de sua orquestra à América do Sul no ano de 1941. No texto, ela mostra que além de ser um espaço de trabalho para os artistas, os cassinos favoreceram a realização de encontros musicais, diálogos de diferentes culturas e uma intensa troca de experiências entre cantores e músicos brasileiros e do exterior.
A influência dos artistas estrangeiros e da atmosfera glamourosa dos salões de jogos, no período de 1933 a 1946, conhecido como “Tempo dos cassinos”, também foi objeto de estudo do historiador Laurent Vidal, um dos pesquisadores franceses que participaram da jornada de 2016 e agora do livro. Professor da Universidade de La Rochelle, Vidal investigou essa influência na formação de uma identidade cosmopolita no Rio de Janeiro daquela época e no impacto da presença estrangeira na criação das modernidades urbana e balneária, arquitetônica, sonora e musical. Um dos focos do pesquisador foi a passagem do cantor francês Jean Sablon, entre 1939 e 1945, pelos palcos dos cassinos da então capital brasileira.
Vizinhos do poder, os cassinos foram palco de eventos relacionados à história política, social e cultural na “Era Vargas”. Esse é um dos aspectos abordados pelo jornalista Flavio Menna Barreto em seu artigo. Autor do livro “Apostas encerradas – O breve império do Cassino Quitandinha” (Ed. Velho Litoral, 217 pág., 2009), Barreto dedicou seu ensaio ao palacete erguido em Petrópolis para ser um suntuoso hotel-cassino, anunciado como o mais luxuoso das Américas. Inaugurado em 1944, na cidade da Região Serrana fluminense, o espaço funcionou como cassino por pouco mais de dois anos apenas.
No período Vargas, os cassinos também serviram de palco para as relações, nem sempre tão harmônicas, entre a música popular e o poder, tratadas em dois ensaios do livro. Em “O samba fora do compasso do ‘Estado Novo’”, Adalberto Paranhos, professor do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), aborda essa relação e a censura às vozes destoantes da pauta estado-novista. Já “A canção popular no tempo de Getúlio Vargas” mostra a intensa difusão da música popular nas décadas de 1930 e 1940, suas intenções e implicações políticas. No texto, Orlando de Barros, professor do Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca, entre outros aspectos, a importância das casas de jogos como espaço de atuação para os artistas populares, assim como as emissoras de rádio que viviam sua época de ouro nos anos 1940 e 1950.
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| Durante a pesquisa que deu origem ao livro, Suely visitou o que restou do Cassino da Urca. Do luxuoso salão à beira mar, restaram apenas ruínas. Posteriormente, a construção foi recuperada (Foto: acervo pessoal) |
Os artistas e produtores que transitavam pelos cassinos e estavam em evidência naquele período são personagens do artigo “As roletas e a indústria da música no Rio de Janeiro do século XX”, do jornalista e gestor cultural Leo Feijó. Autor de textos sobre a cultura da noite e do entretenimento, Feijó mostra que as indústrias da música e dos salões de apostas trabalhavam em colaboração. Em meio às figuras que brilhavam naquele momento, um dos protagonistas da noite era o empresário Joaquim Rolla, proprietário de cassinos em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Conhecido como o “Rei da roleta”, Rolla foi analisado pelo jornalista, pesquisador e escritor João Perdigão, no capítulo “Como o show business dos cassinos moldou o Brasil contemporâneo”.
Além de ser espaço para os artistas, os cassinos dão emprego a milhares de trabalhadores, temporários ou não, da área do espetáculo na França, assim como acontecia no Brasil. Em seu artigo, o professor e coordenador do Mestrado em Administração e Gestão Musical da Sorbonne, Gilles Demonet, investiga a relação entre a música e as casas de apostas e faz uma cronologia dos regulamentos dos cassinos na França, o que permite realizar uma comparação com as práticas adotadas ou não no Brasil.
O impacto da proibição do jogo, em 1946, na atividade profissional dos músicos é o tema do texto produzido pelas pesquisadoras Luciana Requião, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Programa de Pós-graduação em Música da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), e Anne Meyer, doutora em Documentação e História da Música pela UniRio. No ensaio, resultado de pesquisa realizada no Fundo Documental do Sindicato dos Músicos do Estado do Rio de Janeiro, as autoras recuperaram informações inéditas sobre o regime de trabalho para os músicos nos cassinos.
A diversidade dos temas abordados no livro, mostra o impacto que as casas de jogos tinham, 90 anos atrás, no cenário artístico e cultural brasileiro, em especial à música; no mercado de trabalho de instrumentistas e cantores; e na indústria do entretenimento. Apesar disso, o “Tempo dos cassinos” é relativamente pouco estudado, se comparado à “Época de ouro do rádio no Brasil”.
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| Suely Campos Franco: para a pesquisadora, o "Tempo dos cassinos" ainda é relativamente pouco estudado se comparado à "Época de ouro do rádio no Brasil". Memória dos salões de jogos sofreu uma espécie de apagamento (Foto: acervo pessoal) |
“No Brasil, os estudiosos se dedicaram muito mais às pesquisas sobre o rádio do que aos estudos acerca dos cassinos. Os acervos das emissoras e dos jornais contribuíram para guardar a memória do rádio. Já a memória dos cassinos sofreu uma espécie de apagamento por conta do fechamento dos salões e do próprio preconceito em relação àqueles espaços”, argumenta a pesquisadora.
O lançamento da obra, no Rio de Janeiro, será dia 7 de outubro, às 19h, na Sala Guarani do Teatro Carlos Gomes, no Centro. Para o evento estão previstas uma mesa com os autores e uma apresentação musical com exemplos do repertório apresentado nos cassinos da Urca, Atlântico, Copacabana Palace, Icaraí e Quitandinha.
A escolha do Teatro Carlos Gomes tem um significado histórico: após o fechamento dos cassinos, em 1946, o espaço recebeu festivais beneficentes em apoio aos artistas que, com o fim das atividades, perderam seus contratos e seus locais de trabalho. O lançamento pretende, assim, associar a apresentação do livro à preservação da memória desse importante capítulo da história da música e da vida artística brasileira.
Até o fim de 2026, Suely Campos Franco também pretende levar o livro para feiras literárias e para lançamento em livrarias e espaços culturais de outras cidades brasileiras. Em Belo Horizonte, o evento será na Livraria da Rua, em data a ser confirmada.