Débora Motta e Marcos Patricio
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| Mesa de abertura do Seminário Integrado sobre Mulheres na Ciência: a partir da esq., a diretora Científica da FAPERJ, Eliete Bouskela; a reitora da Uerj, Gulnar Azevedo; o secretário de CT&I, Antonio Nóbrega; a presidente da Fundação, Caroline Alves; e a diretora de Administração e Finanças, Luciana Lopes (Fotos: George Magaraia/Uerj) |
Os impactos dos editais lançados pela FAPERJ para ampliar a presença e o protagonismo feminino na ciência foram o tema principal do “Seminário Integrado sobre Mulheres na Ciência – Experiências, desafios e políticas de fomento”, que lotou, nesta quinta-feira, 1º de outubro, o Auditório da Capela Ecumênica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Nos últimos três anos, a Fundação lançou editais voltados especificamente à promoção da equidade de gênero na pesquisa, que buscam inserir jovens cientistas mulheres, mães, pesquisadoras e pessoas com deficiência, além de incentivar o ingresso de meninas nas carreiras científicas e tecnológicas em que ainda são subrepresentadas, como nas áreas de Exatas e Engenharias.
Entre as políticas de fomento apresentadas, foram avaliados os impactos de dois editais lançados pela FAPERJ em 2024: o Programa Apoio às Cientistas Mães com Vínculo em ICTs do Estado do Rio de Janeiro, formulado para ajudar na recuperação da trajetória profissional após a maternidade, em parceria com o Instituto Serrapilheira e a organização Parent in Science; e o Programa Meninas e Mulheres nas Ciências Exatas e da Terra, Engenharias e Computação, que ajuda a despertar vocações para a ciência entre meninas de escolas públicas. Esses editais foram fruto do trabalho da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão (CPEDI) da FAPERJ, criada em 2023 para a formulação de editais e políticas inclusivas na Fundação.
Na mesa de abertura, o recém-empossado secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), Antonio Claudio Nóbrega, destacou a importância da diversidade na ciência e na gestão pública do setor. “A Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) têm que ter um papel central para o desenvolvimento econômico, para a geração de emprego e renda. Quanto mais diverso e inclusivo for o olhar do gestor, mais enriquecemos a nossa capacidade de fazer diagnósticos precisos dos problemas públicos e de propor soluções mais eficazes para os desafios da sociedade. Daí a importância de uma maior participação e do protagonismo das mulheres, que ajudam a multiplicar nossas perspectivas sobre o mundo, assim como o olhar de pessoas negras e com deficiência e de populações originárias, que nos enriquece. Todo problema complexo exige soluções complexas, com olhares múltiplos”, refletiu.
Ao participar da cerimônia de abertura do seminário, a presidente da FAPERJ, Caroline Alves, enfatizou a capacidade e o esforço das pesquisadoras das universidades e instituições de pesquisa fluminenses. “Esse encontro nasce da convicção de que não existe ciência de excelência sem diversidade. Quando mulheres deixam a carreira científica por maternidade, falta de apoio ou referências, o Rio de Janeiro perde talentos, perguntas e soluções. O trabalho feito pelas pesquisadoras e pela Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão da FAPERJ fortalece o estado e toda a sociedade ganha com isso. O resultado desse trabalho pode ser visto nos números aqui apresentados”, afirmou. Caroline destacou ainda a importância do trabalho de avaliação dos editais e reafirmou o compromisso da Fundação com o aperfeiçoamento dos programas. “Vamos trabalhar para fortalecer, cada vez mais, a ciência e a inovação do nosso estado”, concluiu.
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| Integrantes da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão da FAPERJ e autoridades, com o secretário de CT&I, Antonio Nóbrega (à frente): trabalho voltado à formulação de políticas públicas para a promoção da igualdade de gênero foi pioneiro entre as fundações de amparo à pesquisa no País |
A presidente da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão da FAPERJ, Leticia de Oliveira, ressaltou a importância de avaliar os resultados de editais destinados à equidade e inclusão lançados como fruto das atividades da Comissão. “Uma das questões mais importantes em políticas públicas é fazer a avaliação das políticas elaboradas. Para isso, nós preparamos um questionário de avaliação para as nossas contempladas em dois editais muito importantes: o edital de Apoio às Cientistas Mães e o edital Meninas e Mulheres na Ciência. O objetivo deste evento foi discutir com elas as respostas a esses formulários para que possamos melhorar os nossos editais nas próximas edições”, afirmou. A Comissão elaborou um boletim informativo com as avaliações feitas pelas pesquisadoras contempladas, que está disponível nas redes sociais para todos os interessados.
De acordo com Leticia, a criação dos editais tem sido fundamental para enfrentar desigualdades persistentes na formação, permanência e progressão na carreira científica. No entanto, a implantação de uma política não garante sua efetividade. Por isso, a necessidade de avaliar continuamente os resultados desses programas. “Além de oferecer subsídios para novas edições, a avaliação produz também evidências capazes de fortalecer institucionalmente a continuidade e o aprimoramento dessas políticas”, disse.
Na mesa de abertura do evento, Leticia apresentou um panorama sobre o desequilíbrio ainda hoje existente em alguns segmentos da carreira acadêmica e falou sobre o impacto dos editais. A presidente da Comissão também citou outras iniciativas com viés de inclusão, como o inédito Programa de Apoio às Pesquisas sobre Doenças Raras, lançado em 2025; o Programa de Apoio à Jovem Cientista Mulher Dra. Tatiana Sampaio, este ano; e o edital Raízes – Estudos sobre a diversidade étnico-racial e religiosa no Brasil, que, no momento, está em avaliação.
Ela adiantou que um novo edital de Apoio à Melhoria das Escolas da Rede Pública deverá ser lançado em 2026. Entre as ações previstas está a promoção da equidade, diversidade e inclusão no ambiente escolar e o enfrentamento da violência de gênero, do racismo, do capacitismo e de outras formas de discriminação. A proposta é reduzir desigualdades educacionais, com atenção a escolas e territórios em maior vulnerabilidade social, econômica ou educacional.
A reitora da Uerj, Gulnar Azevedo, afirmou que o evento é uma forma de reconhecer e dar visibilidade ao trabalho das mulheres na ciência. “Esse evento simboliza muito para nós, mulheres. Simboliza que, apesar de todas as dificuldades que a vida nos impõe, porque temos a nossa carreira, mas cuidamos de toda a família, e estamos aqui. Somos maioria nas universidades, em quase todas as áreas. Estamos entre as pesquisadoras que querem continuar publicando e contribuindo para o progresso da ciência”, ponderou. “A FAPERJ está de parabéns por esses editais, que trabalharam na perspectiva de mostrar o trabalho de mulheres e tem reforçado que elas estão presentes de forma muito significativa, e que essa questão precisa ser priorizada. A Uerj vai completar 76 anos em 2026, e eu ainda sou a segunda mulher a ocupar a Reitoria. Apesar de sermos maioria entre os professores universitários, para ocupar cargos de poder ainda temos muito a trabalhar”, completou.
A diretora Científica da FAPERJ, professora Eliete Bouskela, falou sobre a necessidade de ampliar a participação das mulheres no setor científico, ainda marcado pela desigualdade de gênero. Eliete falou sobre sua experiência no Brasil e na Suécia, onde também trabalhou, e citou os números da representatividade feminina em academias científicas. “Na Academia Brasileira de Ciências (ABC), temos 18% de mulheres. Essa é a representatividade que temos hoje na ABC, embora tenhamos, pela primeira vez, uma presidente mulher, a professora Helena Bonciani Nader. Já na Academia Nacional de Medicina (ANM), que fará 200 anos em 2029, nós elegemos até hoje, como membros, apenas 1,7% de mulheres”, informou Eliete, que foi a primeira mulher a ocupar a presidência da ANM, em 2024.
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| A neurocientista Leticia de Oliveira, presidente da Comissão, apresentou, no Auditório da Capela Ecumênica, na Uerj, dados sobre as avaliações do edital de Apoio às Cientistas Mães e do programa Meninas e Mulheres na Ciência |
A diretora de Administração e Finanças da FAPERJ, Luciana Lopes Costa, ressaltou o papel da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão e as ações realizadas nos últimos três anos. “A Comissão da FAPERJ foi pioneira entre todas as Fundações de Amparo à Pesquisa do Brasil. Ela é um espaço permanente de escuta, reflexão e proposição, que ajuda a identificar as barreiras que a gente encontra na nossa sociedade no que diz respeito à ciência”, afirmou. Luciana também destacou a necessidade de dar continuidade ao trabalho que tem sido realizado. “O fato de termos uma comissão de equidade, de falarmos sobre equidade não significa que isso esteja resolvido. Ao contrário, mostra que quando existem oportunidades, mulheres podem ocupar todos os espaços da sociedade: espaços de decisão, espaços de governo, Presidência. Tudo é possível! Basta termos oportunidades”, afirmou.
O seminário, que reuniu várias pesquisadoras contempladas nos dois editais avaliados e em outras chamadas lançadas pela FAPERJ nos últimos anos, prosseguiu com a mesa-redonda “Mulheres na Ciência: experiências, desafios e políticas de fomento”, com a participação das pesquisadoras Rosana Rodrigues, reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf); Andreia Carneiro da Silva, capitã de Fragata da Marinha do Brasil; e Karin Menéndez Delmestre, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). O encontro foi mediado pela professora Catia Antonio da Silva, da Uerj.
Após o intervalo para almoço, foram realizadas uma sessão de pôsteres com projetos apoiados pelos editais e a apresentação, pela presidente da CPEDI, dos resultados da avaliação dos editais de apoio às cientistas mães e de meninas e mulheres na ciência. Antes do encerramento, houve a plenária “Avaliação, aprendizados e caminhos para os próximos editais”, com a participação das pesquisadoras contempladas e integrantes da Comissão Permanente de Equidade. O objetivo foi discutir resultados, identificar prioridades e reunir recomendações para o aprimoramento das próximas chamadas.