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Publicado em: 05/11/2026 | Atualizado em: 05/11/2026

Pesquisa mostra riscos do consumo de cafeína no período perinatal

Marcos Patricio

Realizado com modelos experimentais, o estudo mostrou que as mulheres devem restringir o consumo de cafeína durante a gestação e a lactação. Pesquisa apontou que a dose de 300 mg/dia, considerada segura pela OMS, não se mostrou segura (Fotos: Divulgação LFE/Uerj)

Estudos realizados por pesquisadores do Laboratório de Fisiologia Endócrina (LFE), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sobre o consumo de fontes de cafeína pelas gestantes durante o período perinatal, apontam uma série de riscos que a ingestão da substância pode trazer à saúde dos filhos. Os resultados da pesquisa, feita com modelos experimentais, permitem relacionar o uso da cafeína nessa fase à maior possibilidade de as crianças nascerem abaixo do peso e, na vida adulta, apresentarem maior suscetibilidade a diabetes e a disfunções tiroidianas. O estudo contou com o apoio da FAPERJ. 

Composto químico natural que funciona como um estimulante do sistema nervoso central, a cafeína mantém o cérebro em alerta e reduz a sensação de fadiga. A substância é encontrada em diferentes tipos de plantas, como as folhas dos chás mate, preto ou verde; as favas de cacau; e as sementes de guaraná. A maior concentração, no entanto, está nos grãos de café, que contém uma média de 90 mg em cada xícara de 200 ml. Ela também está presente na composição de produtos industrializados, como bebidas energéticas, chocolates, refrigerantes e, ainda, na fórmula de antigripais e analgésicos, entre outros medicamentos.

Iniciada em 2022, a pesquisa partiu de dois objetivos: um deles foi investigar os impactos causados pelo consumo de uma dose de 250 mg/dia de cafeína no período perinatal. “Uma dose considerada baixa, pois está aquém da dose de 300 mg/dia, que é tida como segura pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O outro propósito foi verificar se a exposição à cafeína teria um efeito diferente de acordo com a janela de exposição, ou seja, durante a gestação isoladamente, durante apenas a lactação ou no período continuado, que se estende do dia em que foi iniciada a gestação até o fim da lactação”, explicou a coordenadora do projeto, Luana Lopes de Souza, professora do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag) da Uerj e que realiza suas pesquisas no Laboratório de Fisiologia Endócrina. 

Trabalho em equipe: o projeto foi desenvolvido no Laboratório de Fisiologia Endócrina da Uerj, liderado pelos professores (a partir da esq.) Egberto Gaspar de Moura, Rosiane Miranda, Luana Souza e Patricia Lisboa. A pesquisa já rendeu publicações em periódicos internacionais

O projeto é desenvolvido pela equipe do Laboratório de Fisiologia Endócrina, liderado pelos docentes Egberto Gaspar de Moura, Patricia Cristina Lisboa, Luana Lopes de Souza e Rosiane Aparecida Miranda.  A maior parte dos dados do projeto foi obtida durante o desenvolvimento da dissertação de mestrado da pesquisadora Mayara da Silva Almeida, atualmente aluna de doutorado do Programa de Pós-graduação em Biociências da Uerj.

Os estudos, que caracterizam o consumo da cafeína no período perinatal, já renderam três publicações em periódicos indexados internacionais da área, que apresentam os três principais achados do projeto até o momento. Um deles demonstrou que a dose considerada segura pela OMS, que recomenda que a gestante deve limitar o consumo de cafeína a 300 mg por dia, na verdade, não é segura. O trabalho mostrou que mesmo uma dose mais baixa, de 250 mg/dia, consumida pelos modelos experimentais (roedores) foi capaz de promover baixo peso ao nascer na prole fêmea, reduzir os hormônios tiroidianos na prole macho e promover disfunção tiroidiana na vida adulta dessas proles.

Mayara Almeida: dados obtidos durante o mestrado da pesquisadora serviram de base para o projeto, demonstrando que a fase de lactação é uma janela crítica de exposição à cafeína

“É importante ressaltar o que a literatura já começa a apontar, não em modelo experimental, mas em estudos epidemiológicos. Alguns autores já começam a sugerir que a recomendação mude de 300 mg/dia para 200 mg/dia. Esse já é o consenso em alguns colegiados, como o colegiado americano de obstetras e ginecologistas”, adiantou Luana Souza, nutricionista com mestrado e doutorado em Ciências Biológicas – Fisiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e contemplada pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ.

Outro resultado do estudo mostra que o período de lactação é uma janela crítica de exposição à cafeína, sendo necessário a restrição do seu consumo nesse período. “Muitas mulheres restringem o consumo de cafeína apenas na gestação e depois do parto retomam a ingestão de alimentos com a substância. O estudo reforça a importância de que não haja a retomada do consumo de fontes de cafeína na lactação, já que a mãe vai passar a substância para o bebê através do leite materno podendo gerar disfunções”, explicou a pesquisadora, cujo projeto também foi selecionado no edital Apoio às Cientistas Mães com Vínculo em ICTs do Estado do Rio de Janeiro. “A conduta ideal seria suspender o consumo de fontes de cafeína durante o período perinatal, tanto durante a gestação como durante a lactação”, destacou.

O estudo mostrou, ainda, que os efeitos da exposição da cafeína no período perinatal dependem da janela de exposição. Há efeitos diferenciados de acordo com a janela: se for na gestação ou se for na lactação. “Dentre esses efeitos, foi possível identificar que a prole fêmea exposta à cafeína durante a lactação parece ter uma maior suscetibilidade à diabetes, o que é um achado bem interessante. Também já é possível afirmar, de acordo com os estudos, que o impacto da exposição à cafeína no período perinatal gera efeitos na prole, dependendo do sexo. Há um perfil diferenciado para a prole macho e outro para a prole fêmea”, afirmou.

“Para chegar a essas conclusões, a equipe fez uso de uma dose no modelo experimental que mimetiza o consumo de 250 mg por dia de cafeína por uma mulher no período perinatal”, explicou Luana Souza, que também é subchefe do Departamento de Ciências Biomédicas e Saúde (DepCBS) do Ibrag, no campus Cabo Frio da Uerj.

Luana Souza: de acordo com a coordenadora do projeto, estudo mostrou que os efeitos do consumo de cafeína variam de acordo com o período de exposição

De acordo com a pesquisadora, as gestantes consomem cafeína por diferentes fontes. O café, especificamente, tem outros componentes que poderiam trazer benefícios. “É preciso ter cuidado na transmissão dessas informações, porque a cafeína é um risco, mas o café ainda não tem estudos claros que mostrem os efeitos devido aos outros compostos, como polifenóis, que têm ações benéficas e que poderiam mitigar o efeito da cafeína. Mas, como a cafeína tem esse risco, considerando que estamos falando do período perinatal, que é o início da vida, o ideal é a prevenção. Mesmo dentro da faixa considerada segura pela OMS, os nossos dados mostram que não seria seguro. Então, a recomendação seria não fazer uso de cafeína nem durante a gestação e nem durante a lactação. Algumas agências europeias já estão começando a rever essa recomendação da OMS”, explicou Luana Souza.

Segundo ela, os estudos vão continuar e a intenção da equipe é ampliar os objetos de pesquisa. “Dentro desse modelo experimental, a gente pretende investigar outros mecanismos envolvidos nessas disfunções hormonais e metabólicas que essas proles apresentam, especialmente, no que diz respeito à função hepática, que é algo que a gente está investigando agora”, adiantou.  “Vamos verificar como está a deposição de lipídios nesse fígado e algumas vias associadas à deposição de lipídios. Também temos interesse em identificar um outro fator que está super associado ao controle metabólico e hormonal do nosso organismo, que é o eixo intestino-cérebro. Caracterizar um pouco essa microbiota e a função intestino-cérebro desses animais é um interesse do nosso grupo de pesquisa”, concluiu Luana Souza.

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