Débora Motta
| Alunos do Cefet/RJ testam sistema de escoamento de águas durante grandes enchentes no Rio de Janeiro, na maratona de inovação Expin 48, que desafia estudantes a criarem soluções tecnológicas e sustentáveis na rede de ensino (Fotos: Divulgação) |
Referência na formação de profissionais e especialistas na área tecnológica, o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ) oferta 5.371 vagas anuais e atende a mais de 20 mil estudantes, distribuídos em 37 cursos técnicos, 35 cursos de graduação, sete especializações, 10 mestrados e cinco doutorados. Ali, no campus Maracanã, o professor titular Marco Antonio Barbosa Braga, que é físico com Doutorado em Engenharia de Produção, vem desenvolvendo um projeto para ajudar a promover a cultura da inovação entre os alunos da instituição. Coordenador do Laboratório de Novos Ambientes para Inovação e Desenvolvimento Sustentável (N@melab), Braga foi contemplado pela FAPERJ, por meio do edital Cientista do Nosso Estado.
Ele recorda que o Cefet/RJ tem uma longa tradição e, ao longo dos anos, vem acompanhando o processo de transformação do parque industrial brasileiro. “Temos refletido bastante sobre a questão da inovação, que está em voga agora, e precisamos adaptar o perfil das instituições de ensino para atender às necessidades de um mercado mais inovador. O Cefet foi criado em 1917, sob a denominação de Escola Normal de Artes e Ofícios Wenceslau Braz, para atender à necessidade de formação de recursos humanos das manufaturas da época. Em 1942, o então presidente Getúlio Vargas mudou esse perfil, e a instituição passou a ser chamada de Escola Técnica Nacional, para formar técnicos industriais. Em 1978, passou a se chamar Cefet, como autarquia especial e, agora, essa mesma instituição continua se reformulando de acordo com as transformações tecnológicas do País, e precisa atender aos desafios atuais do mercado, já como Universidade Federal de Ciência e Inovação”, contextualizou.
Uma nova legislação federal (Lei nº 15.521/2026) acaba de dar ao Cefet/RJ e ao Cefet de Minas Gerais o status de universidade. Agora, eles passam a ser denominados universidades federais de Ciência e Inovação (UFCI/RJ e UFCI/MG). A nova lei estabelece que ambas as instituições passam a ter organização, estrutura e competências compatíveis com as universidades, com autonomia administrativa, financeira, patrimonial, didático-científica e disciplinar, além de terem reitor, vice-reitor e um Conselho Universitário como órgão deliberativo e consultivo. A transformação também amplia as possibilidades de acesso a editais e linhas de fomento destinadas às universidades, ampliando as perspectivas de captação de recursos.
O Brasil está na 53ª posição do Índice Global de Inovação 2026, ranking elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês), entre 139 nações pesquisadas. É um posto abaixo do obtido no índice anterior, mas o País teve um avanço, já que estava na 62ª posição em 2020. “Nesse cenário, nossa contribuição, no Cefet/RJ, é incentivar a formação de uma cultura de inovação e empreendedorismo entre os jovens, ainda em idade escolar. Existem diversos projetos para fortalecer a inovação, mas poucos voltados especialmente para a formação desse público de estudantes. Esse é o nosso diferencial”, afirmou Braga.
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| Marco Braga: coordenador do laboratório N@melab, ele esteve em um campo de refugiados da ONU no Malawi, na África, para ajudar a implementar estratégia sustentável de geração de energia eólica |
No N@melab, ele incentiva projetos que busquem soluções para questões sociais que afetam os alunos no estado do Rio de Janeiro e até na África, em parceria com escolas locais. “O nosso laboratório investiga a educação para a inovação em diferentes níveis de ensino. A ideia é aprender a inovar a partir de problemas concretos extraídos da realidade. Por serem jovens da Educação Básica, os alunos não conhecem os problemas do mundo do trabalho. A realidade deles vem das comunidades onde vivem, dos territórios e das cidades. São problemas ligados à escola, à moradia, ao saneamento básico, à saúde e à mobilidade urbana. O ponto de partida, com eles, é a inovação social. O importante é implementar, de fato, as mudanças propostas, com soluções concretas que vão além das feiras de ciências”, detalhou.
Entre os temas trabalhados com os estudantes, estão: a busca de soluções para o descarte de resíduos no Morro da Providência, na região central do Rio; a geração de energia no campo de refugiados de Dzaleka, localizado no Malawi, país no Sudeste da África – classificado em diversos rankings internacionais como um dos cinco países mais pobres do mundo; e a melhoria da qualidade da água potável em uma escola rural em Nova Friburgo.
“No Morro da Providência, a primeira favela do Brasil, o lixo é de difícil retirada porque os caminhões não chegam lá. Depois de descobrir que é possível produzir eletricidade a partir do lixo, os estudantes do oitavo ano de uma escola da rede pública, na Pequena África, visitaram a usina da Comlurb no Caju, onde esse processo é realizado, e vêm buscando soluções inovadoras para engajar a comunidade na coleta diferenciada de resíduos orgânicos e não-orgânicos. Essa atividade estimulou os jovens a pesquisarem sobre o processo de produção de energia a partir de resíduos sólidos urbanos”, disse.
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| A partir da cooperação internacional com o Cefet/RJ, professores e alunos do campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, preparam protótipo de um gerador de energia eólico, feito a partir de resíduos encontrados no campo |
Estreitando laços de cooperação científica entre Brasil e África, o projeto no campo de refugiados de Dzaleka, no Malawi, teve como desdobramento a instalação de um espaço de inovação para instalação de uma bomba d’água movida a energia eólica. No local, gerido pela Organização das Nações Unidas (ONU), vivem 60 mil refugiados, e há uma escola que atende cerca de dois mil alunos. “Professores da Ubuntu Nation School e da Eagles Junior Academy pediram ajuda ao N@melab para desenvolver projetos inovadores com os estudantes. Em 2023 e 2024, foram realizadas oficinas-piloto de formação dos professores. Em 2027, o projeto será retomado com a inauguração de um Espaço Maker de Inovação STEAM (voltado às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e para as crianças do campo. Será desenvolvida uma oficina de formação, e os professores terão acompanhamento por meio de um canal na internet”, contou.
Já em Nova Friburgo, na Região Serrana, eles trabalharam para melhorar a qualidade da água potável em uma comunidade rural. “Embora a água seja de nascente, chega à escola bastante suja. Os estudantes bebiam essa água. Uma turma multisseriada, com alunos entre 9 e 12 anos, identificou esse problema como o mais grave da comunidade e procurou construir um filtro baseado em materiais de sucata. Ele não foi construído, mas foi instalado um filtro industrial na escola, em 2024”, disse. “Essas ações nas escolas ajudam a aproximar os jovens de comunidades vulneráveis dos modelos de inovação e a pensarem em soluções sociais”, concluiu.
Braga também é autor do livro Aprendendo a inovar em projetos STEAM – Um guia para estudantes, consagrado como finalista do 64º Prêmio Jabuti em 2022. A obra destaca-se no cenário educacional brasileiro ao abordar a metodologia STEAM e a Aprendizagem Baseada em Projetos (PbL), auxiliando estudantes a desenvolver competências voltadas para a inovação, criatividade e sustentabilidade.