Paula Guatimosim
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| A recomendação é de que a gestante só retire a cinta, fabricada em material anatômico, antialérgico, respirável e lavável, para tomar banho (Foto: Divulgação Baby Move) |
O Brasil registrou, entre 2020 e 2023, mais de 172 mil óbitos fetais, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Já o Painel de Monitoramento da Mortalidade Infantil e Fetal indica que, em 2023, o Brasil registrou a menor taxa de mortalidade infantil e fetal por causas evitáveis dos últimos 28 anos. Foram registradas 20,2 mil mortes, o menor número de uma série histórica desde 1996, ano em que o total de óbitos foi de 53,1 mil, portanto 62% a mais do que no ano atual. Em 2024, esse número voltou a crescer, atingindo 22.919 mortes fetais e quase 20 mil óbitos neonatais.
Os óbitos fetais são, em grande parte, considerados potencialmente evitáveis por ações de imunoprevenção, adequada atenção à mulher na gestação e parto e ao recém-nascido, ou diagnósticos corretos. Mortes evitáveis são aquelas classificadas como as que poderiam ser impedidas. Ocorrem, na maioria das vezes, ao final de gestações de baixo risco, em recém-nascidos normais e sem malformações congênitas. A legislação brasileira determina a obrigatoriedade do fornecimento de uma Declaração de Óbito Fetal, no livro de Nascidos Mortos.
Tomado pela ansiedade e insegurança quanto ao bem-estar do bebê durante as gestações de sua esposa, marcadas por complicações inesperadas, nas quais ela entrou em trabalho de parto com 26 semanas e deu à luz com 31 semanas, sem causa aparente, o ginecologista e obstetra Cristiano Salles Rodrigues dedicou seu doutorado a buscar uma solução que desse mais segurança às gestantes, aos fetos e aos médicos que acompanham a gravidez. Contribuiu ainda para essa motivação o fato de ele ter vivenciado o óbito de um feto de 37 semanas, filho de uma de suas pacientes, portadora de diabetes. Rodrigues explica que, na maioria das vezes, o óbito fetal tem causas indeterminadas, e o inexplicável intensifica o luto dos pais.
“Mortalidade Fetal: uma proposta de tecnologia digital para melhoria dos cuidados de saúde fetal no período perinatal” foi o título da sua tese de Doutorado em Planejamento Regional e Gestão da Cidade, pela Universidade Cândido Mendes. O projeto chegou a ficar em segundo lugar na categoria Saúde da Maratona Rocket, desafio que aposta na criatividade, no trabalho em equipe e na resiliência para desenvolver soluções. E foi vencedor da Maratona de Impacto Positivo do Festival Cria Brasil 2025, realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, que reconheceu projetos de alto impacto social e inovação na área da saúde.
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| Jessica e Cristiano Rodrigues: as complicações inesperadas na gravidez da esposa levaram o médico a idealizar o dispositivo (Fotos: Arquivo pessoal) |
O produto final é simples. Uma cinta desenvolvida por empresa especializada, fabricada em tecido elástico, anatômico, antialérgico, respirável e lavável é ajustada ao corpo da gestante ao longo da gravidez por um fecho de velcro especial que vai se ajustando na medida em que a barriga cresce. Dentro da cinta, os dispositivos eletrônicos monitoram a frequência cardíaca da mãe e do feto, a pressão arterial e o índice glicêmico da grávida e os movimentos do feto. Esse monitoramento do bem-estar do bebê e da mãe durante a gestação é possível com a ajuda da Inteligência Artificial, que consegue, por exemplo, diferenciar os batimentos cardíacos da gestante e do feto. O médico afirma que o objetivo não é, de forma alguma, substituir o pré-natal ou a consulta médica, mas acompanhar em tempo real a gestante e o bebê.
O dispositivo eletrônico, desenvolvido por engenheiros da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), pode ser retirado com facilidade para que a gestante lave a cinta. Um aplicativo, baixado no celular da gestante e até mesmo do médico que a acompanha, avisa sobre qualquer ocorrência anormal, possibilitando a detecção precoce de problemas. Finalizado em meados de 2025, o protótipo foi testado por uma estagiária grávida da Embrapii e ao longo da gestação foram feitos os ajustes no sistema, que já foi registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).
“O ideal é que a gestante use a cinta 24 horas e só a retire para tomar banho. Sabemos que os maiores fatores de risco durante a gravidez são a hipertensão e o diabetes. Então, qualquer alteração no quadro de saúde da mãe ou do feto pode ser verificada e tratada no consultório”, explica o obstetra.
O médico contou com recursos do Programa Doutor Empreendedor, da FAPERJ, para desenvolver o projeto e, na fase atual, conta com o apoio da Embrapii para a validação clínica, que será realizada em um hospital de gestação de alto risco em Campos dos Goytacazes. À frente da gestão administrativa, Jéssica Rodrigues, cofundadora da Baby Move, atua na condução estratégica do projeto, reunindo sua experiência de mais de 15 anos em liderança, inovação em saúde e desenvolvimento de modelos de atendimento voltados à eficiência, segurança e humanização do cuidado.
Após a validação clínica, o modelo de negócio prevê que o dispositivo possa ser disponibilizado por meio de aluguel ou comodato, tanto para gestantes quanto para profissionais de saúde, clínicas, operadoras de planos de saúde e órgãos públicos. Ele acredita ainda que, com a produção em escala e a redução de custos, o Baby Move possa ser adotado em Centrais de Monitoramento do Sistema Único de Saúde (SUS).