Débora Motta
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| Simulação virtual da escova, projetada para controlar a intensidade da força durante a higienização oral e evitar problemas bucais, como a retração da gengiva e danos ao esmalte dentário (Arte: Divulgação) |
Escovar os dentes diariamente é fundamental para a saúde bucal, mas realizar a higiene de forma correta, sem aplicar força excessiva sobre o esmalte dentário e as gengivas, é igualmente importante. Com o objetivo de reduzir danos causados pela escovação com força excessiva sobre os tecidos bucais, cirurgiões-dentistas da Odontoclínica Central da Marinha do Brasil (OCM) desenvolveram um protótipo inovador de escova dental, projetado para ajudar no controle da força aplicada durante a escovação. O projeto é coordenado pela Capitão de Fragata, Cirurgião-Dentista CF(CD) Teresa Cristina Pereira de Oliveira, que recebe apoio da FAPERJ por meio do edital Apoio a Cientistas Mães com Vínculos em Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) do Estado do Rio de Janeiro.
Segundo a coordenadora da pesquisa, estudos laboratoriais indicam que a força aplicada durante a escovação não deveria ultrapassar 3 newtons. “Esse valor foi determinado em experimentos controlados, mas, na prática, as pessoas não conseguem medir ou perceber exatamente a força que aplicam ao escovar os dentes”, explica. No dia a dia, a intensidade da escovação depende principalmente da percepção individual, o que pode levar à aplicação de força excessiva no ato de higienização oral, principalmente por crianças.
Nos últimos anos, a indústria de produtos de higiene bucal tem buscado alternativas para melhorar a escovação, produzindo escovas como cerdas mais macias, alterações na densidade e distribuição das cerdas e o desenvolvimento de escovas elétricas motorizadas, algumas com sensores de força. Entretanto, esses modelos costumam ter custo elevado, o que limita o acesso de grande parte da população. “Mesmo com essas inovações, ainda não existe uma forma simples e acessível de garantir que o usuário mantenha uma força escovatória adequada”, afirma a CF(CD)Teresa.
Para enfrentar essa limitação, a equipe da OCM desenvolveu uma escova dental modificada equipada com um dispositivo mecânico simples capaz de controlar e sinalizar quando a força ideal de escovação é atingida. A proposta é oferecer uma tecnologia de baixo custo e fácil utilização, que possa contribuir para a prevenção de danos dentários e gengivais, sendo aplicada ao público geral e também para crianças.
Segundo a pesquisadora, o objetivo é desenvolver uma escova calibrada para a força ideal de escovação. “Hoje, existe no mercado brasileiro escova eletrônica com sensor de força, mas que custa cerca de R$ 800. Nosso protótipo, quando produzido em larga escala, poderá ter um valor próximo ao de uma escova dental convencional, pois utiliza recursos tecnológicos simples, tornando o produto altamente custo-efetivo”, afirma. A inovação já teve pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e o projeto segue aberto a parcerias com a indústria odontológica para viabilizar sua produção.
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| Equipe ICT-Odontoclínica da Marinha: a partir da esq., 1ºT(CD) Leticia Marques, CF(CD) Teresa Cristina, 1ºT (CD) Raquel Losso e 1ºT (RM2-CD) Jácome (Foto: Divulgação) |
A Capitão de Fragata (CD) Teresa explica que o protótipo também foi pensado para ser inclusivo. “Quando a escovação for realizada com força excessiva, a escova emitirá um bip sonoro, acenderá uma luz e produzirá vibração, permitindo que pessoas com deficiência visual também percebam o alerta”, detalha. Outro aspecto considerado foi a sustentabilidade: a cabeça da escova será substituível, reduzindo o descarte do produto completo.
O projeto vem sendo desenvolvido desde 2023, com a colaboração de pesquisadores do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais (CTecCFN) da Marinha do Brasil, localizado em Parada de Lucas, na Zona Norte do Rio de Janeiro. No Centro Tecnológico, o protótipo foi produzido com auxílio de impressão 3D, tecnologia cada vez mais utilizada na Odontologia para confecção de próteses e dispositivos personalizados.
De acordo com os pesquisadores, a retração gengival é um problema relativamente comum e pode causar desconforto significativo. “A escovação com força excessiva pode provocar lesões não cariosas, que são desgastes do esmalte dental causados pelo atrito das cerdas. Também pode levar à retração gengival, sensibilidade dentária e até exposição da raiz do dente”, explica Teresa.
A diretora da Odontoclínica Central da Marinha, Capitão de Mar e Guerra (CMG-CD) Livia Ferreira Soares, destaca a importância do investimento em ciência, tecnologia e inovação dentro da instituição. Tradicionalmente, a Marinha do Brasil investe em ensino e pesquisa, sendo referência em áreas como a nuclear e a naval. “Na OCM, contamos com muitos profissionais altamente qualificados — atualmente são 60 mestres e 13 doutores. Recentemente, a Odontoclínica recebeu do Ministério da Defesa a chancela de Instituição de Ciência e Tecnologia (ICT), o que permitirá ampliar nossa infraestrutura de pesquisa voltada para a saúde do combatente. O desenvolvimento desse protótipo é uma inovação que nasce na Marinha, mas que pode beneficiar toda a sociedade”, afirma.
Integram a equipe do projeto os cirurgiões-dentistas e pesquisadores da Célula de Inovação Tecnológica da Marinha: Primeiro-Tenente (RM2-CD) Humberto Jácome Santos, mestre e doutor em Odontologia, com área de concentração em Patologia Bucal pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Harvard School of Dental Medicine e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); a Primeiro-Tenente (CD) Raquel Machado Andrade Losso, mestre e doutora em Odontologia, com área de concentração em Patologia Humana pela Universidade Federal Fluminense (UFF); e a Primeiro-Tenente (CD) Leticia Côgo Marques, mestre e doutora em Odontologia, também com área de concentração em Patologia Humana pela UFF. Responsável pela coordenação administrativa, a Capitão de Fragata (CD) Teresa Cristina Pereira de Oliveira é mestre e doutora em Odontologia, com área de concentração em Ortodontia, e assessora-chefe do setor. O projeto tem ainda a participação do Capitão de Corveta (CD) Rafael Matheus Lima, assessor-adjunto do setor, especialista em Periodontia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e em Prótese Dentária pela Odontoclínica Central da Marinha.