Paula Guatimosim
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| O pesquisador Carlos Correa Neto durante procedimento em laboratório para extração do veneno de uma cobra coral verdadeira (Foto: Divulgação) |
No Brasil, existem quatro gêneros de serpentes peçonhentas. São elas as responsáveis pelos quase 30 mil acidentes ofídicos que ocorrem, em média, a cada ano no País, especialmente na região amazônica, ocasionados, na maioria dos casos, por jararacas. Os quatro gêneros - Bothrops (jararacas, urutus), Crotalus (cascavéis), Lachesis (surucucus) e Micrurus (corais-verdadeiras) - podem causar acidentes graves, em alguns casos evoluindo para a perda de membros e até o óbito. O diagnóstico preciso e rápido, associado a um tratamento precoce, é a melhor forma de combater o ofidismo. No entanto, apenas pelos sinais clínicos, o diagnóstico correto se torna uma tarefa difícil para os médicos. Na Amazônia, por exemplo, coabitam os gêneros Bothrops e Lachesis, os quais geralmente apresentam sintomas praticamente idênticos nas primeiras horas do envenenamento. Dessa forma, um teste rápido, como suporte laboratorial, possibilitaria ao médico adotar uma conduta terapêutica rápida e assertiva no acidente ofídico.
Foi durante a pandemia de Covid-19 que o pesquisador Carlos Correa Netto viu a oportunidade simples, rápida e acessível de aprimorar sua pesquisa sobre o desenvolvimento de um teste rápido para acidente ofídico. Ele já trabalhava para desenvolver um kit diagnóstico há muitos anos e durante seu Mestrado chegou a avaliar uma molécula que poderia servir de biomarcador, a partir de anticorpos monoclonais e policlonais, para diferenciar picadas de jararacas e cascavéis. A descoberta poderia atrair indústrias farmacêuticas, pois utilizaria anticorpos monoclonais, que podem produzir o mesmo tipo de anticorpo, de forma contínua em cultivo de células. Mas o biólogo enfrentava alguns entraves para levar adiante sua pesquisa, principalmente devido ao longo tempo de espera até o resultado do teste e à necessidade de manter o kit sob refrigeração.
A pandemia de Covid-19 exigiu uma rápida resposta dos pesquisadores aos desafios que a doença impunha, especialmente no desenvolvimento de kits rápidos de diagnóstico, hoje encontrados facilmente em farmácias e capazes de apontar o resultado em apenas 30 minutos. Um dos testes disponíveis para a identificação do coronavírus é a partir da técnica LAMP (Loop-mediated isothermal amplification), um método rápido, barato e de alta especificidade para um biomarcador, que custa um terço do valor do PCR e não exige equipamentos caros.
O pesquisador, então, utilizou os dados que já havia obtido para montar um protótipo com base no teste rápido LAMP, um teste isotérmico, feito em temperatura ambiente, eliminando a necessidade de refrigeração e equipamentos sofisticados. O veneno de serpente tem base proteica e o LAMP reconhece o material genético (DNA ou RNA) do biomarcador. Neste caso, o pesquisador utiliza aptâmeros, ou seja, sequências curtas de DNA que se ligam com alta afinidade aos biomarcadores proteicos. Os aptâmeros são produzidos a partir de bibliotecas randômicas de DNA, selecionando sequências que se ligam à molécula de interesse, dentre milhares de sequências presente na biblioteca. A seleção dos aptâmeros ocorre a partir de um ciclo de repetições de testes, composto por etapas de adsorção, dissociação e amplificação das sequências alvo. Dessa forma, vão sendo selecionados aptâmeros que tenham afinidade ao biomarcador e sendo eliminados os que não reconhecem a molécula. No experimento para o desenvolvimento do teste rápido, os pesquisadores pretendem utilizar dois aptâmeros que se ligam em pontos distintos da molécula, para estruturar a fita de DNA e permitir que a reação de LAMP aconteça.
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| Carlos Correa Netto: bioquímico e coordenador do projeto, ele utilizou os dados que já havia obtido para montar um protótipo com base no teste rápido LAMP, disponíveis para a identificação do coronavírus, capaz de diagnosticar a picada de quatro espécies de serpentes: jararacaçu, jararaca, surucucu e cascavel (Foto: Divulgação) |
A pesquisa é apoiada pela FAPERJ por meio do Programa Doutor Empreendedor, no qual seu projeto foi classificado em segundo lugar. “A originalidade do projeto está em associar, pela primeira vez, o potencial dos aptâmeros à alta sensibilidade e rapidez de amplificação de DNA inerente ao método LAMP, para detectar proteínas do veneno de serpente em um teste rápido”, resume o bioquímico e coordenador do projeto. O teste rápido será capaz de diagnosticar a picada de quatro espécies de serpentes: jararacaçu, jararaca, surucucu e cascavel. A purificação dos biomarcadores e produção de aptâmeros está sendo realizada em colaboração com as professoras Lina Zingali e Mónica Montero Lomelí, do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBqM/UFRJ).
Carlos conta que desde jovem se interessava por serpentes. Ele começou a carreira estagiando no Instituto Vital Brazil, referência no desenvolvimento de soros antiofídicos, e aos 18 anos passou em um concurso de nível técnico. Mas, ao longo dos anos, começou a se interessar pelos venenos das cobras, daí ter enveredado pela Bioquímica. Com mestrado em Tecnologia de Imunobiológicos em Biomanguinhos (Fundação Oswaldo Cruz) e doutorado em Química Biológica pelo Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez doutorado sanduíche e pós-doutorado no Instituto de Biomedicina de Valência, Espanha, em 2010 e 2013, respectivamente. Atualmente, é o fundador de uma startup que busca soluções em diagnóstico. Para dar continuidade ao projeto, Carlos espera contar novamente com os editais da FAPERJ. “O apoio da Fundação é fundamental, em especial este edital Doutor Empreendedor, que nos dá a oportunidade de estruturar e acelerar o negócio”, alega o pesquisador.
Recentemente, para aumentar o portfólio da sua empresa, o pesquisador tem se debruçado em questões do agronegócio. Ele explica que sua startup RC Biotech estabeleceu uma colaboração com o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Sérgio José Mecena da Silva Filho, que estuda formas de minimizar o uso de agrotóxicos nos pomares de laranja em Tanguá, município da região metropolitana do Rio de Janeiro. Os pomares de laranja do município enfrentam a doença conhecida como “pinta preta dos citros”, causada por um fungo. Neste projeto, o pesquisador pretende desenvolver métodos de diagnóstico, de forma precoce, proteínas e estruturas do fungo. Com esse intuito, ela planeja utilizar drones, a serem desenvolvidos em colaboração com o setor de robótica do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da UFRJ (Coppe) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), para que, por meio de imagens e amostras coletadas pelos drones, associadas a um teste molecular, possa fazer a identificação precoce do fungo, na sua fase latente, antes de atacar os frutos e acometer as plantas. “Com a identificação precoce da incidência da doença é possível fazer um controle fitossanitário de precisão, antes que os frutos sofram danos”, explica o pesquisador. O projeto deverá ser submetido ao edital de Incentivo às Indicações Geográficas do Estado do Rio de Janeiro.